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O consórcio amadureceu? Mudanças em governança, transparência e o futuro do setor

em Artigos
quinta-feira, 16 de julho de 2026

Francis Silva (*)

Há produtos financeiros que carregam estigmas difíceis de apagar. O consórcio foi, por muito tempo, um deles. Associado a processos burocráticos, vendedores insistentes e uma certa névoa de desconfiança, o setor viveu décadas à margem da modernidade financeira. Mas isso mudou, e de forma estrutural.

Nos últimos anos, o consórcio passou por uma transformação silenciosa, mas profunda. Uma combinação de regulação mais rigorosa, avanço tecnológico, consumidor mais exigente e ambiente macroeconômico favorável empurrou o setor para um novo patamar de maturidade. Hoje, falar de consórcio é falar de planejamento financeiro, governança e estratégia.

A regulação do Banco Central, intensificada ao longo dos últimos anos com novas resoluções específicas para o setor, criou um ambiente de disciplina. Exigências de compliance, controles internos, auditorias externas semestrais, políticas de relacionamento com o cliente e gestão de inadimplência passaram a ser obrigações.

Esse movimento elevou o custo de operar mal. A governança deixou de ser uma formalidade para se tornar parte central da estratégia de longevidade das administradoras. Quem entendeu isso cedo saiu na frente.

Se a regulação criou as regras do jogo, a tecnologia mudou a forma de jogá-lo. Processos burocráticos, presenciais e opacos migraram para ambientes digitais, mais ágeis e transparentes. Isso democratizou o acesso ao produto.

A digitalização atacou esse problema em duas frentes. Primeiro, ampliou o acesso a conteúdo educativo, hoje qualquer pessoa pode, antes de assinar qualquer contrato, entender profundamente como funciona o produto, quais são seus riscos e qual a diferença entre os modelos disponíveis. Segundo, aproximou o consorciado da gestão da própria cota, com acesso em tempo real a assembleias, contemplações e extratos.

Foi esse novo consumidor mais informado, conectado e exigente que também mudou o padrão competitivo do setor. Quem investiu em transparência ganhou o ativo mais valioso de qualquer relação financeira: a confiança.

Outra transformação significativa do setor é o uso do consórcio como estratégia de alavancagem financeira, ou como operação de investimento, adquirindo cotas para, após contempladas, vender no mercado com ágio.

O setor amadureceu, mas ainda há espaço para avançar em educação financeira, em personalização de produtos e na integração de práticas ESG à operação com planos que incentivem a aquisição de bens como veículos elétricos, sistemas de energia solar e imóveis com certificação sustentável.

O consórcio tem infraestrutura, credibilidade e escala para ocupar um papel ainda mais relevante no sistema financeiro brasileiro. O que o próximo ciclo vai exigir é a mesma combinação que explicou o amadurecimento recente: regulação séria, tecnologia bem aplicada, transparência como valor e consumidores cada vez mais preparados para fazer boas escolhas.

(*) Francis Silva é CFO e COO da Mycon, primeira fintech de consórcios do Brasil. É mestrando em Controladoria e Finanças (FIPECAFI).