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Mulheres no centro da sustentabilidade: o desafio que as empresas não podem ignorar

em Artigos
terça-feira, 14 de julho de 2026

Ana Fontes (*)

Nas conversas que venho acompanhando de perto sobre o futuro da sustentabilidade, uma mensagem vem pipocando para mim: ESG cada vez mais sai do território só da reputação e entra cada vez mais na estratégia. Alguns bons debates que participei – desde o CSW70 da ONU, passando pelo Skoll World Forum e pela Brazil Week em Nova York – trouxeram questões de negócios conectados com o tema, como eficiência, inovação e gestão de risco.

Em Nova York, a discussão sobre justiça mostrou que direitos, acesso a recursos e participação nas decisões são condições para sociedades e mercados mais estáveis. Em Oxford, ficou ainda mais evidente que soluções climáticas duradouras nascem quando comunidades e territórios deixam de ser apenas beneficiários e passam a ser protagonistas.

Para o Brasil, essa agenda é uma oportunidade concreta. Temos biodiversidade, potência empreendedora e capacidade de construir respostas locais com relevância global. Mas não haverá transição justa se as mulheres, que já são as maiores provedoras de famílias no Brasil e a maior parte da força de trabalho, sustentando comunidades e boa parte da economia cotidiana, continuarem à margem do capital, da tecnologia e dos espaços de decisão. A pesquisa Empreendedoras e Seus Negócios 2025, do Instituto Rede Mulher. Empreendedora, já mostrava parte da dimensão desse desafio.

A crise climática e a ascensão da tecnologia não são neutras. Elas aprofundam desigualdades já existentes e atingem de forma desproporcional as mulheres, especialmente as negras, indígenas, periféricas, rurais e responsáveis pelo sustento de suas famílias. A ONU Mulheres, por exemplo, estima que, em um cenário climático severo, mais 158 milhões de mulheres e meninas poderão ser empurradas para a pobreza extrema até 2050. Esse é um alerta social, claro, mas também é um dado econômico e de mercado.

Com a sustentabilidade deixando de ser uma pauta paralela e passando a ser reconhecida como parte das decisões sobre o futuro do negócio, competitividade, resiliência das cadeias produtivas e licença social para operar, olhar para justiça climática do ponto de vista também de gênero se faz urgente. Mas os passos ainda são lentos e por vezes a execução da transição para uma economia mais sustentável fica como batata quente, ou seja, todos sabem a importância e querem seus ganhos, porém nem todos estão colocando de fato a mão na massa.

O ESG não pode ser uma campanha de calendário. Ele precisa aparecer em metas, orçamento, indicadores e governança. Empresas podem começar medindo quantas mulheres, negras e indígenas estão em sua cadeia de valor; ampliando a compra de fornecedores liderados por mulheres; criando acesso a capacitação, tecnologia e capital; e acompanhando resultados por território, raça e gênero. É desse jeito que impacto vira estratégia e valor compartilhado.

Investir em mulheres é inteligência de negócio – seja do ponto de vista de produtividade interna e inovação, como também do ponto de vista de imagem e do próprio mercado. Quando uma mulher aumenta sua renda, ela movimenta a economia local, amplia a segurança de sua família e gera efeito multiplicador na comunidade.

Ao integrar gênero e justiça climática à agenda ESG, as empresas respondem ao tempo em que vivemos, mas também de fato constroem futuros mais fortes, inovadores, preparados e desejáveis – para elas e para todos

(*) Ana Fontes é fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e  atua na intersecção entre o setor privado e políticas públicas. É Vice-Presidente do Pacto Global da ONU Brasil e preside o W20, grupo de engajamento do G20 para a pauta de mulheres.