Homo homini lupus, ou a luta pelas vacinas

Vivaldo José Breternitz (*)

Resta a esperança de que consigamos fabricar a vacina por aqui.

Alguns otimistas dizem (ou diziam) que depois da pandemia estariam muito presentes valores como a solidariedade e o reconhecimento de que somos interdependentes; também ficaria claro que interesses privados não poderiam reger a vida pública.

Mas, ao que parece, irá prevalecer o que é expresso pela frase do dramaturgo Plautus (254-184 a.C.): “homo homini lupus”, ou “o homem é o lobo do homem”. A frase foi popularizada pelo filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), que a inseriu em sua clássica obra de 1651, Leviatã.

Essa convicção deriva do fato de que enquanto agências internacionais de saúde começam a pensar em como vacinar populações mais vulneráveis dos diversos pontos do mundo, como forma de enfrentar o coronavírus, alguns governos já decidiram tomar iniciativas individualmente, procurando fechar negócios com empresas do ramo farmacêutico, de maneira a garantir vacinas para seus cidadãos.

Dentre esses negócios destacam-se aqueles que estão sendo discutidos pelos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia com empresas como Pfizer, AstraZeneca, GlaxoSmithKline e Sanofi, entre outras.

Entidades como os Médicos Sem Fronteiras e a One Campaign, organizações voltadas ao combate à pobreza e às doenças, já se manifestaram contra essas iniciativas, que podem gerar posturas do tipo “cada um por si, salve-se quem puder”, de consequências difíceis de se prever.

Quando a H1N1, a gripe suína, se manifestou em 2009, essas nações ricas tiveram a mesma atitude, comprando todo o estoque disponível de vacinas e deixando os países mais pobres sem acesso às mesmas; naquele caso as consequências não foram tão graves porque a pandemia acabou sendo mais branda e curta.

No caso da covid-19, a situação é diferente; a doença se expande mais rapidamente e causa muito mais mortes, precisando ser combatida de forma global para que a pandemia seja encerrada de forma mais rápida.
É razoável acreditar que até o final de 2021 poderão ter sido fabricadas cerca de 2 bilhões de doses da vacina, isso se aquelas que agora parecem que serão eficazes realmente o forem.

Considerando que podem ser necessárias duas doses para imunizar uma pessoa, seriam consumidas 1,7 milhões para atender Estados Unidos e União Europeia. Quanto aos demais… Para o Brasil, resta a esperança de que consigamos fabricar a vacina por aqui.

O governo federal também está estudando a adesão à COVAX Facility, um mecanismo projetado para garantir acesso mundial rápido e equitativo à vacina com os países dotados de mais recursos, entre eles o Brasil, financiando seu desenvolvimento e produção, e os mais pobres a recebendo gratuitamente. Resta-nos esperar que o Brasil se junte à iniciativa e que ela seja eficaz.

Justificando o título deste artigo, é oportuno dizer que a União Europeia já recomendou aos seus membros que não entrem na COVAX Facility, afinal por que destinar recursos aos mais pobres?

(*) – Doutor em Ciências pela USP, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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