João Roberto Benites (*)
As transformações climáticas deixaram de representar apenas um desafio ambiental para se consolidarem como um dos principais fatores de competitividade das empresas e das economias. Em um cenário marcado por mudanças regulatórias, novas exigências de investidores e uma sociedade formada por consumidores mais conscientes, a sustentabilidade passou a integrar as decisões estratégicas das organizações.
Essa percepção é compartilhada pelas novas gerações. Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), realizado em parceria com a Capgemini, mostra que 75% dos jovens brasileiros estão preocupados com os impactos das mudanças climáticas sobre o futuro e 66% acreditam que o desenvolvimento de competências ligadas à sustentabilidade abrirá novas oportunidades de trabalho. Os percentuais superam as médias globais, nas quais 67% dos entrevistados acreditam que ainda é possível evitar os piores efeitos do aquecimento global e 61% associam as chamadas green skills a melhores perspectivas profissionais.
A pesquisa ouviu 5,1 mil jovens entre 16 e 24 anos em 21 países, entre eles Brasil, Estados Unidos, China, Índia, Alemanha, Reino Unido e Japão. Do total de participantes, 83% pertencem a países do Sul Global, demonstrando que a agenda climática ultrapassa fronteiras e passa a influenciar expectativas econômicas e sociais em diferentes regiões do mundo.
O Brasil reúne condições estratégicas para liderar a transição para uma economia de baixo carbono. Com aproximadamente 90% de sua matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, além de seu potencial agrícola, mineral e ambiental. O desafio, porém, está em transformar esses ativos naturais em inovação, produtividade e desenvolvimento sustentável, ampliando investimentos em tecnologia, infraestrutura e formação de talentos.
Essa realidade também alcançou a governança corporativa passou a integrar a agenda da alta liderança e dos conselhos de administração. A gestão dos riscos climáticos, a eficiência operacional, a inovação e a geração de valor tornaram-se dimensões inseparáveis de uma estratégia voltada ao longo prazo.
Transparência, ética, inovação e responsabilidade deixaram de ser diferenciais para se tornarem atributos indispensáveis à geração de valor e à construção da confiança junto a investidores, clientes, colaboradores e à sociedade. Hoje, esses temas são elementos estruturantes da competitividade e da boa governança, exigindo planejamento, metas claras e capacidade de execução.
Os indicadores reforçam essa transformação. De acordo com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), o número de empresas brasileiras que divulgam inventários de emissões de gases de efeito estufa mais que dobrou nos últimos anos. Em 2025, esse universo ultrapassou 1,3 mil organizações, enquanto 60% das empresas já estabeleceram metas de descarbonização. As novas gerações já compreenderam que desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental caminham lado a lado. Cabe agora às empresas transformar essa consciência em estratégia, investimento e inovação.
(*) João Roberto Benites preside Conselhos de Administração de empresas familiares; atua como Conselheiro Consultivo da Grant Thornton Brasil e do Hospital das Clínicas (SP).
