Roberta Bigucci (*)
O Japão tem muitos pontos interessantes para discutir a presença ou ausência de práticas de ESG (Environmental, Social, and Governance/Ambiental, Social e Governança). Estive lá em férias com a família, e aproveitei para observar o ESG no dia a dia. Vale ressaltar que este artigo não é um estudo científico, apenas minha visão após visitar cidades como Tóquio, Osaka, Akihabara e Hiroshima.
Ambiental (E): Eficiência e Consciência Coletiva A ausência de lixeiras públicas e a limpeza impecável das ruas demonstram a responsabilidade individual e uma forte consciência coletiva. O compromisso com o meio ambiente é cultural, superando a necessidade de lixeiras. Como turista, adaptei-me e carregava saquinhos na bolsa para descartar o lixo em lojas de conveniência.
Quanto à eficiência, o Japão é líder tecnológico. O trem-bala (Shinkansen) é um marco de eficiência aerodinâmica, projetado para otimizar o consumo de energia por passageiro. Edifícios modernos em Tóquio e Osaka frequentemente incorporam tecnologias de baixo consumo, uma inovação impulsionada pela necessidade de gerenciar recursos limitados.
Social (S): Coesão e Desafios O silêncio e o respeito no metrô evidenciam a consideração pelo bem-estar coletivo. Contudo, a superlotação pode ser estressante; notei que, após as 23h, o silêncio diurno desaparece com passageiros falando alto e, algumas vezes, alcoolizados. Em Hiroshima, o Parque e o Museu da Paz exemplificam como o país lida com o passado trágico, dedicando-se à não-proliferação nuclear, valores sociais alinhados ao ESG.
Governança (G): Estrutura e Inovação O Japão é extremamente organizado, mas a rigidez pode afetar a agilidade. Vivi isso ao tentar um check-in antecipado para minha nora que estava grávida: mesmo com a justificativa, a burocracia do hotel foi inabalável. O conceito de Sanpo Yoshi (“benefício para os três lados”: vendedor, comprador e sociedade) encapsula essa responsabilidade social, embora a regra sem exceção às vezes gere perda de tempo e burocracia desnecessárias.
Há contradições: apesar do respeito pelo próximo, a noção de espaço é peculiar. No metrô, passageiros sentam-se sem hesitar no espaço disponível, mesmo que fiquem muito próximos. Além disso, notei desafios na inclusão: assentos prioritários exigem que a pessoa solicite o lugar, caso contrário, jovens permanecem sentados e gestantes e idosos ficam em pé. A infraestrutura nem sempre favorece a acessibilidade, com muitas escadas e elevadores pouco sinalizados.
Por fim, destaco os banheiros tecnológicos. A limpeza impecável e o conforto, com aquecimento no assento e sistemas inteligentes de duchas acopladas, são reflexos de um “S” focado no bem-estar e um “G” comprometido com a excelência no atendimento. Embora o consumo de água e energia desses sistemas seja elevado, o foco na experiência do usuário é inegável.
Foi uma experiência cultural incrível e uma oportunidade de refletir sobre o ESG na prática.
(*) Roberta Bigucci é diretora de inovação e ESG da MBigucci
