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Envelhecer é inevitável. Tornar-se obsoleto é uma escolha.

em Artigos
quinta-feira, 25 de junho de 2026

Alessandro Lopes (*)

Durante muito tempo, associamos desenvolvimento à expansão. Construímos novos bairros, avenidas e edifícios acreditando que o crescimento físico das cidades seria suficiente para responder aos desafios do futuro. Hoje, porém, uma mudança silenciosa transforma essa lógica: grande parte dos edifícios e infraestruturas que estarão em uso nas próximas décadas já foi construída.

O desafio do século XXI talvez não seja erguer novos espaços, mas garantir que os existentes continuem relevantes, eficientes e desejáveis ao longo do tempo.

Essa reflexão vai muito além da arquitetura. Trata-se de economia, competitividade e preservação de valor. Durante décadas, a localização foi considerada o principal fator de valorização imobiliária. Agora, um novo elemento ganha protagonismo: a capacidade de adaptação.

Em um cenário marcado por mudanças tecnológicas, ambientais e comportamentais aceleradas, edifícios que não evoluem tendem a perder atratividade. Consomem mais recursos, apresentam custos operacionais elevados e têm maior dificuldade para atender às expectativas dos usuários. O resultado aparece na perda de competitividade e na redução do valor patrimonial.

Por outro lado, empreendimentos que investem em eficiência energética, acessibilidade, conforto ambiental e modernização ampliam sua vida útil econômica e fortalecem sua relevância no mercado. Não se trata apenas de reduzir despesas, mas de proteger ativos e garantir que o patrimônio continue gerando valor ao longo do tempo.

Essa mudança também nos leva a repensar o conceito de cidade inteligente. Durante anos, imaginamos cidades inteligentes como ambientes repletos de sensores e tecnologias digitais. Essas ferramentas são importantes, mas não constituem o objetivo final. Uma cidade inteligente é, antes de tudo, uma cidade capaz de aprender, adaptar-se e evoluir.

Nesse contexto, condomínios e edifícios assumem papel estratégico. Cada retrofit, melhoria de acessibilidade, investimento em eficiência energética ou gestão de recursos contribui para definir a cidade que teremos amanhã.

A sustentabilidade deixa então de ser apenas uma agenda ambiental e passa a representar uma estratégia econômica. Um edifício eficiente reduz custos, aumenta sua atratividade e prolonga sua capacidade de gerar valor. Em um mercado cada vez mais competitivo, sustentabilidade tornou-se inteligência econômica.

Talvez a maior transformação em curso seja humana. Pela primeira vez convivem simultaneamente até cinco gerações nos mesmos espaços urbanos. Essa realidade exige ambientes mais flexíveis, inclusivos e preparados para acompanhar as mudanças da sociedade.

Os empreendimentos mais valorizados das próximas décadas provavelmente não serão os mais novos. Serão aqueles capazes de evoluir junto com as pessoas.

Porque envelhecer é inevitável. Tornar-se obsoleto é uma escolha. E, para cidades, empresas, condomínios e patrimônios, essa escolha possui um preço cada vez mais alto.

Minicurrículo

(*) Alessandro Lopes é arquiteto, urbanista e Mestre em Direito Ambiental.

O Brasil está preparado para envelhecer? – Jornal Empresas & Negócios