Franz Petrucelli (*)
O brasileiro nunca esteve tão endividado. De acordo com levantamento recente da FecomercioSP, cerca de 30% da renda das famílias brasileiras está comprometida com o pagamento de dívidas. O cenário reflete um nível elevado de endividamento no país, que alcançou um recorde histórico e já atinge aproximadamente 80,9% dos lares brasileiros.
Os números revelam mais do que uma dificuldade financeira pontual. Eles mostram uma mudança estrutural no comportamento econômico das famílias brasileiras. Hoje, oito em cada dez famílias do país possuem algum tipo de dívida.
O problema é que o endividamento deixou de estar ligado apenas a grandes compras ou financiamentos. Cada vez mais, as famílias entram no vermelho para sustentar despesas básicas, como alimentação, aluguel, contas domésticas e medicamentos. A inflação persistente dos alimentos, o alto custo do crédito e a perda gradual do poder de compra criaram uma combinação explosiva para o orçamento doméstico.
Nos últimos anos, programas como o Desenrola Brasil, criado pelo governo federal, ajudaram milhões de brasileiros a renegociar dívidas e voltar ao mercado de crédito. A iniciativa teve mérito ao aliviar parte da inadimplência reprimida e permitir que muitas famílias reorganizassem suas finanças. Mas o próprio crescimento acelerado do endividamento mostra que renegociar dívidas, sozinho, não resolve um problema que se tornou estrutural.
Existe hoje um modelo de consumo baseado no parcelamento permanente da vida. O cartão de crédito virou extensão da renda mensal. O Pix acelerou o consumo imediato. As apostas online passaram a disputar espaço dentro do orçamento doméstico. E o crédito fácil, muitas vezes sem educação financeira adequada, transformou a dívida em algo banalizado.
O mais preocupante é que a inadimplência já começa a alterar a dinâmica econômica das cidades. Famílias endividadas consomem menos, investem menos e perdem capacidade de planejamento. O comércio sente os reflexos, o setor de serviços desacelera e a própria economia regional perde força.
Em Minas Gerais, esse cenário ganha um peso simbólico importante. Historicamente associada à prudência financeira e ao planejamento familiar, Belo Horizonte agora lidera justamente o ranking da inadimplência nacional. Isso revela que o problema deixou de atingir apenas grupos vulneráveis e passou a alcançar diferentes perfis de renda e consumo.
Ao mesmo tempo, cresce uma sensação perigosa de normalização da dívida. Estar negativado passou a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros. E quando a exceção vira regra, o risco não é apenas financeiro: é social.
O desafio dos próximos anos será muito maior do que renegociar boletos atrasados. O Brasil precisará discutir educação financeira, consumo consciente, acesso saudável ao crédito e mecanismos de proteção ao orçamento das famílias. Porque, no ritmo atual, o endividamento deixa de ser apenas um problema individual e passa a se consolidar como um dos principais entraves econômicos do país.
(*) Professor e mestre administração.
Número de famílias endividadas cai, mas inadimplência aumenta – Jornal Empresas & Negócios
