É preciso repensar as políticas públicas de nutrição

A data, que homenageia o profissional capacitado a melhorar a qualidade de vida das pessoas por meio da alimentação saudável, também representa uma oportunidade importante para acender um alerta acerca de como o assunto nutrição é tratado em nosso país. A preocupação faz sentido e pode ser comprovada por alguns dados científicos e de pesquisa.

Recentemente, o periódico British Medical Journal divulgou um estudo relacionando a má alimentação de gestantes ao nível socioeconômico. A pesquisa, que envolveu 16 países, incluindo o Brasil, destacou que a falta de informação e de implementação de intervenções nutricionais como item de cuidados no pré-natal favorece o excesso de peso de grávidas com menor escolaridade.

O descontrole do peso na gestação amplia riscos de desfechos maternos e neonatais adversos, incluindo hipertensão e diabetes gestacional, entre outros males, colocando em risco a saúde tanto da mãe quanto do bebê. O estudo, assim, revela que o problema ligado à nutrição tem início antes mesmo do nascimento do novo ser.

A ausência de preocupação com a nutrição segue nos primeiros anos da criança, quando a mesma inicia sua vida escolar, ao observar o baixo número de nutricionistas atuantes nas instituições de ensino, cuidando da saúde e equilíbrio nutricional dos estudantes. Nesse aspecto, um levantamento do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região SP-MS (CRN-3) com dados de 2017 revelou que apenas 8% dos municípios de São Paulo tem número adequado de nutricionistas nas escolas.

A proporção de nutricionistas para o Programa de Alimentação Escolar é definida pela resolução CFN 465/2010, e varia conforme o número de alunos da rede. De acordo com o levantamento, existe uma carência de quase três mil profissionais da nutrição nas escolas municipais de todo o estado de São Paulo.

A carência desse profissional em todos os níveis da Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio), em instituições de ensino públicas e privadas, está diretamente ligada aos reflexos da má alimentação, o que traz entre os males a obesidade, o sobrepeso e as doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e até mesmo o câncer.

Sem informação e sem políticas públicas voltadas para as questões da alimentação, ficamos mais longe do caminho da saúde. É exatamente o que tem acontecido no país. Basta observar os índices da mais recente Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2018), divulgada em julho pelo Ministério da Saúde, para soar o alerta. A quantidade de brasileiros obesos não para de crescer.

De acordo com a pesquisa Vigitel, entre os anos de 2006 e 2018, o índice de obesidade no país saltou 67,8%, indo de 11,8% para 19,8%. As faixas etárias que registraram maiores amentos na taxa de obesidade foram entre 25 e 34 anos (84,2%) e dos 35 aos 44 anos (81,1%), o que aponta que a má alimentação também é fator preocupante na idade adulta. Segundo o levantamento, 55,7% da população brasileira encontra-se acima do peso. Há 13 anos, a fatia de brasileiros com excesso de peso era de 42,6%.

Todas essas pesquisas reforçam a necessidade de um engajamento maior das autoridades públicas no que diz respeito às políticas ligadas à nutrição. Gestantes, crianças e adultos precisam ter todo o conhecimento possível sobre a importância da nutrição saudável e dos bons hábitos alimentares, sabendo de seus benefícios bem como das graves consequências pela falta de tal prática.

Nesse cenário, a atuação do nutricionista também é essencial. Em seus mais diversos campos de atividade, que vão muito além da prescrição de dietas e da gestão de unidades de alimentação e nutrição, como nas escolas e indústrias, nas clínicas e hospitais, assim como na saúde coletiva, em atividades de fiscalização, conselho e gestão de programas governamentais, esse profissional agrega todo o conhecimento técnico-científico para protagonizar a mudança que o país precisa no aspecto da alimentação.

Por meio do importante papel desempenhado pelo nutricionista, a transformação na relação do homem/mulher e o alimento possibilitará, sem dúvidas, um Brasil mais saudável.

(*) – É presidente do Conselho Regional de Nutricionistas 3ª Região SP/MS (CRN-3).

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