Marcio Aguilar (*)
Há mudanças que parecem técnicas, mas reordenam o funcionamento do crédito. Este é o caso da duplicata escritural, versão digital da duplicata tradicional usada para transformar vendas a prazo em recebíveis negociáveis, que entrou em fase decisiva e pode elevar o padrão de segurança e transparência do mercado.
O avanço ocorre com o modelo coordenado pelo Banco Central e começa pela integração entre registradoras. B3, Cerc, Núclea e SPC Grafeno já iniciaram testes bilaterais de interoperabilidade, com duração estimada de 60 dias. Concluída essa etapa, a operação assistida é prevista para o segundo semestre, seguida do primeiro ciclo em produção no último trimestre, com consolidação gradual ao longo de 2027.
Além do cronograma, o ponto central é o que muda na prática. Ao deixar de depender do papel e passar a nascer, circular e ser controlada em ambiente eletrônico, a duplicata escritural reduz riscos de extravio e fraude, dificultando o uso do mesmo crédito em mais de uma operação. Com a rastreabilidade do registro ao pagamento final, a tendência é de menos incerteza para quem financia e análise mais objetiva para quem concede crédito.
A escala esperada ajuda a dimensionar o impacto. Estimativas elaboradas a pedido do Banco Central indicam que o volume pode saltar de cerca de 8 milhões para até 450 milhões de transações mensais. Se essa infraestrutura se confirmar, cresce a chance de concorrência entre bancos, fintechs e outras estruturas de crédito, com reflexos no custo do financiamento e no alcance do produto para as empresas.
Esse movimento, porém, não é automático, e por isso a transição merece acompanhamento. A obrigatoriedade será faseada por porte, começando por grandes empresas e avançando para médias e pequenas, o que exige adaptação tecnológica e alinhamento operacional em diferentes camadas do mercado. Some-se a isso o desafio da volumetria de dados e da capacidade de processamento, que tende a ser determinante para a fluidez do sistema.
Para o fomento comercial, a direção é clara. Um ambiente com informação mais confiável e padronizada tende a facilitar análise, cessão e liquidez dos recebíveis, além de ampliar a segurança jurídica das operações. A questão agora é observar como essa etapa de testes e implantação se traduzirá na rotina do crédito, e se a teoria, de fato, ganhará tração na prática.
(*) – É presidente do Sindicato das Sociedades de Fomento Comercial – Factoring do Estado do Rio Grande do Sul (Sinfac-RS).
