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A IA deixou de ser uma ferramenta e se tornou estratégia de Estado

em Artigos
sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Francisco Camargo (*)

Se a inteligência artificial se tornou um ativo estratégico às empresas, ela também passou a ser um ativo estratégico a países. Hoje, diferentes governos seguem caminhos distintos. Os Estados Unidos adotam uma estratégia baseada em forte estímulo à inovação, grandes investimentos privados e mínima regulamentação, buscando consolidar a liderança global em IA por meio da expansão de seu ecossistema tecnológico e de sua infraestrutura. O Reino Unido segue direção semelhante, combinando incentivo à inovação com uma governança considerada leve, voltada a estimular investimentos e competitividade sem impor barreiras significativas ao desenvolvimento tecnológico.

A França, por sua vez, aposta em outro modelo. Além de estabelecer princípios éticos ao desenvolvimento da IA, investe fortemente em pesquisa financiada pelo setor público, formação de talentos e parcerias entre universidades e empresas, buscando construir soberania tecnológica sem abrir mão de mecanismos de governança.

Já a China adota uma estratégia diferente das potências ocidentais. Além de acelerar o desenvolvimento de modelos próprios, aposta na ampla disseminação de soluções de baixo custo e tokens significativamente mais baratos, ampliando rapidamente sua presença geopolítica. O objetivo deixa de ser apenas competir tecnologicamente – passando a ser uma estratégia de criação de dependência tecnológica em quase todos os países do mundo.

Essa diversidade de táticas revela um dilema importante. Países que optarem por regulações excessivamente restritivas poderão reduzir sua capacidade de inovação e poderão se tornar dependentes das tecnologias desenvolvidas por outras nações. Por outro lado, a ausência completa de regras, amplia riscos relacionados à segurança: afetando negativamente a proteção de dados, os direitos autorais e a própria estabilidade econômica e social.

Por isso, a discussão sobre inteligência artificial talvez já tenha ultrapassado a esfera regulatória nacional. Assim como o mundo precisou construir tratados internacionais para limitar a proliferação de armas nucleares, cresce o debate sobre a necessidade de mecanismos globais de coordenação para tecnologias de IA cada vez mais poderosas. Não se trata de impedir a inovação, mas de estabelecer princípios mínimos comuns capazes de reduzir riscos sistêmicos sem comprometer o avanço científico.

Nesse contexto, criar estruturas administrativas ou ampliar órgãos nacionais de coordenação dificilmente será suficiente para garantir soberania tecnológica. A verdadeira soberania dependerá da capacidade de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia própria, formar talentos e participar ativamente da construção das futuras regras internacionais da IA.

Em relação ao Brasil é preciso a promoção de uma estratégia nacional de Inteligência Artificial a fim de garantir a soberania na era digital, estimulando a inovação tecnológica e não tolhendo o empreendedorismo nesta área.

O mundo mudou. Durante muito tempo, a economia foi explicada a partir de três fatores de produção: terra, trabalho e capital. Hoje, porém, um quarto elemento assume papel decisivo na geração de riqueza e inovação, o empreendedorismo. E, diferentemente dos demais fatores, ele se tornou o recurso mais escasso e estratégico.

Além disso, os empreendedores são ainda mais móveis do que o próprio capital. Em um cenário globalizado, podem estar hoje investindo e criando negócios no Brasil e, amanhã, transferir suas operações para os Estados Unidos ou para a Europa. Por isso, a capacidade de um país atrair e reter talentos empreendedores depende diretamente da oferta de um ambiente seguro, estável e favorável ao desenvolvimento de novos negócios.

O desafio não é escolher entre inovação e regulamentação, mas encontrar um equilíbrio que preserve a competitividade sem renunciar à segurança e à confiança.

(*) Engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP e fundador da CLM, empresa referência na distribuição de soluções de segurança da informação na América Latina.