Pedro Al Shara (*)
A segurança eletrônica brasileira atravessa uma transformação que vai muito além da substituição de equipamentos analógicos por soluções digitais. Câmeras passaram a interpretar imagens, sistemas de controle de acesso conseguem reconhecer padrões, alarmes podem ser analisados remotamente e diferentes dispositivos passaram a compartilhar informações em tempo real. A tecnologia passou a participar diretamente da identificação de ocorrências e da resposta a elas.
O mercado acompanha esse movimento. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE), o setor movimentou mais de R$ 16 bilhões em 2025 e reúne cerca de 33 mil empresas. A entidade também aponta que 87,5% dos produtos atualmente fabricados pelo setor possuem recursos de inteligência artificial.
Uma câmera que analisa imagens em tempo real, por exemplo, depende de processamento eletrônico, alimentação elétrica, comunicação e, em muitos casos, armazenamento. Em uma solução integrada de controle de acesso, a informação capturada por um leitor precisa chegar ao sistema responsável pela validação e retornar ao equipamento que executará o comando. Em uma portaria remota, esse fluxo ainda envolve comunicação com uma central de comando e controle que pode estar a quilômetros de distância.
São arquiteturas compostas por diferentes elementos, cada um com uma função específica. A falha de um deles pode comprometer uma operação que, individualmente, parece estar funcionando perfeitamente.
A alimentação elétrica é uma dessas dependências e merece ser analisada com o mesmo cuidado dedicado aos demais componentes dessa infraestrutura. O problema não está restrito à falta de energia. Oscilações de tensão, surtos e outros distúrbios elétricos também podem interferir no funcionamento de equipamentos eletrônicos e de comunicação, especialmente em instalações que concentram uma grande quantidade de dispositivos conectados. Em um projeto de segurança eletrônica, a qualidade e a disponibilidade da alimentação precisam ser avaliadas de acordo com a importância de cada função.
A expansão das portarias remotas ajuda a ilustrar essa mudança. Em 2024, a ABESE apontava que esse modelo já estava presente em mais de 14 mil condomínios no país. Nesses ambientes, parte da operação que antes dependia de um profissional fisicamente presente, hoje passa a ser executada por uma combinação de câmeras, controle de acesso, comunicação, plataformas de monitoramento e sistemas de processamento.
Quando uma arquitetura desse tipo é projetada, a análise não pode ficar limitada às características individuais de cada equipamento. É necessário observar como eles se relacionam e quais componentes sustentam as funções consideradas críticas.
Um sistema pode continuar alimentado e perder sua função porque o equipamento de rede responsável pela comunicação foi afetado. Um controlador de acesso pode permanecer ativo e não conseguir validar uma autorização. Um gravador pode continuar registrando imagens enquanto a central remota perde a comunicação com o local monitorado.
Planejamento elétrico deve acompanhar função e criticidade dos componentes
Por isso é essencial ter um planejamento elétrico que precisa acompanhar essa lógica desde a concepção do projeto. Isso envolve conhecer as cargas críticas, entender o comportamento dos equipamentos, estabelecer o nível de autonomia necessário e avaliar onde proteção e redundância fazem sentido. O dimensionamento também precisa considerar o ambiente em que a solução será instalada e o impacto que uma interrupção pode provocar.
Uma câmera instalada em uma área comum de um condomínio apresenta uma criticidade diferente de um sistema responsável pelo controle de acesso de uma instalação industrial ou hospitalar. O mesmo vale para um centro de distribuição, um estabelecimento comercial ou uma infraestrutura pública. Não existe uma única configuração adequada para todos esses cenários.
Essa análise também deveria estar presente no momento de contratar uma solução de segurança. Avaliar apenas resolução de câmeras, capacidade de armazenamento ou recursos de inteligência artificial não permite compreender completamente a capacidade de uma instalação. É preciso considerar as condições necessárias para que todos esses recursos funcionem de maneira integrada e contínua.
Energia, conectividade, comunicação, armazenamento e redundância precisam ser analisados em conjunto, porque a confiabilidade de uma solução depende da relação entre esses elementos. Isso não significa simplesmente instalar uma infraestrutura maior, é necessário dimensioná-la de acordo com a criticidade da operação e com as condições que precisam ser preservadas em caso de falhas. Em determinadas aplicações, alguns minutos podem ser suficientes para recuperar o funcionamento. Em outras, manter determinadas funções disponíveis por um período maior pode ser fundamental.
A evolução tecnológica também aumenta essa responsabilidade. A incorporação de inteligência artificial permite que os sistemas processem mais informações e assumam tarefas que antes dependiam exclusivamente da intervenção humana. Ao mesmo tempo, cada nova camada tecnológica acrescenta componentes e relações que precisam ser considerados no projeto.
O mercado já mostra a velocidade dessa transformação. Se 87,5% dos produtos atualmente fabricados pelo setor possuem recursos de inteligência artificial, como aponta a ABESE, não faz sentido tratar a infraestrutura que alimenta, conecta e mantém esses equipamentos como uma questão secundária.
E esse é um dos pontos que precisam ganhar espaço na próxima etapa de desenvolvimento da segurança eletrônica no Brasil. A tecnologia já avançou bastante na capacidade de identificar eventos, interpretar informações e automatizar respostas. O desafio agora está também em garantir que essa capacidade permaneça disponível nas condições em que ela será realmente necessária.
A inteligência pode estar embarcada em uma câmera, em um controlador ou em uma plataforma, mas é a confiabilidade que precisa estar presente em toda a arquitetura que permite que esses recursos funcionem em perfeitas condições.
(*) CEO da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente.
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