Daniel Báril (*)
Neste momento do ano, em que temos os olhos voltados para o futuro (e para o 2026 que se abre diante de nós), lembro-me de um discurso proferido por Steve Jobs, em 2005, para estudantes da Universidade de Stanford. Ao rememorar sua própria trajetória, marcada por zigue-zagues e desvios inesperados, mas se dirigindo a jovens cheios de ímpeto, que naquele momento projetavam carreiras possivelmente exitosas, Jobs advertia contra a tentação de traçar a carreira – e a própria vida – com excessiva antecedência.
“Você não pode conectar os pontos olhando para a frente”, disse. “Você só pode conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos, de alguma forma, vão se conectar no futuro.”
A advertência de Jobs vai muito além de um convite à paciência ou à resignação diante do imprevisível. Ela toca no cerne da própria experiência humana. Em um mundo demasiadamente competitivo, que valoriza cada vez mais trajetórias lineares, especializações precoces e planos detalhados de longo prazo, a experiência concreta parece indicar justamente o oposto: são os caminhos não lineares, as combinações improváveis de repertórios e a capacidade de transitar entre disciplinas que acabam por produzir as soluções mais interessantes e relevantes.
Essa é, aliás, a tese central defendida no excelente “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”, de David Epstein. De Kepler a Van Gogh, de Haaland a Federer, todos percorreram trajetórias que só puderam ser plenamente compreendidas quando observadas a partir do retrovisor.
O que pode parecer uma ideia moderna ou inovadora encontra, contudo, ressonância profunda na tradição judaica. Quando Moisés pede para ver D´us, a resposta que recebe é que não poderá ver Seu rosto, apenas Suas costas. A tradição interpreta esse episódio como a expressão de um limite humano essencial: o sentido pleno dos acontecimentos não se revela no instante em que são vividos, mas apenas depois de sua passagem. Vemos as “costas” da história — a forma que ela assume quando olhamos para trás.
Assim também ocorre com trajetórias profissionais, decisões estratégicas e escolhas de vida: no presente, acumulamos experiências que parecem dispersas, por vezes até contraditórias; é apenas retrospectivamente que elas se organizam em narrativa, coerência e propósito.
Dito isso, e olhando para os pontos futuros que se descortinam em 2026, o desejo é que possamos viver plenamente os pontos da história, trilhando trajetórias ricas no acúmulo de experiências – experiências que, quando revisitadas no tempo devido, revelem sentido, coerência e propósito.
(*) Coordenador da área de Insolvência e Reestruturação de Silveiro Advogados, possui especialização em recuperação de empresas e em liderança empresarial e comunitária pelo INSPER/SP e formação em “The Art of Persuasive Writing and Public Speaking” pela Harvard University. É membro da Turnaround Management Association – TMA BRASIL e da Comissão de Falências e Recuperação Judicial, da OAB/RS.
