
Henrique German (*)
Nesses tempos em que, cada dia mais, parecem encurtar-se os textos em espremidos resumos – sempre menores e mais simplificados – de consumo rápido e insosso, escritos para serem deglutidos sem mastigação, nas páginas digitais que nos encurralam de todos os lados e em todos os momentos, chega a ser quase engraçado pretender-se comemorar o Dia Nacional do Livro.
De fato, esse velho objeto, o livro, a cuja celebração consagrou-se o dia 29 de outubro (data escolhida a partir do marco da inauguração da Biblioteca Nacional), não vem recebendo a verdadeira homenagem que se lhe seria de prestar, sem embargo do volume monumental de publicações, nos mais diversos formatos, tamanhos, conteúdos e variadas cores que o Brasil tem experimentado, com tal profusão de títulos e de autores, que produz mesmo espanto. Qual afinal deveria ser a homenagem que honraria justa e concretamente o velho e bom livro? A resposta, para mim, não discrepa da simplicidade óbvia: nenhuma louvação do livro poderá ser maior nem melhor que o ler; lê-lo com gosto, com vontade, com calma, com prazer e com proveito, saboreá-lo, em suma, em todas as nuances que ofereça.
Exaltar porém o livro, nos dias de hoje, com tantas opções outras de entretenimento e com tantas maneiras novas de apreensão do conhecimento e da realidade, fará ainda algum sentido? Penso que sim e por uma razão bastante singela: o livro, em forma condensada, exprime o que de mais sublime a humanidade já inventou, fez e desenvolveu como ápice da criação de que é capaz: a linguagem.
O livro é, pois, expressão do gênio humano em seu modo mais elevado, exatamente porque continente de linguagem. Ora, se é a linguagem o cume da vida do homem, vale dizer, a capacidade dele de articular em discurso o próprio pensamento, de estruturá-lo retamente em palavras e de transmiti-lo a outrem, o livro mostra-se, por outro lado, como veículo essencial, ou melhor, ideal, de expansão da humanidade mesma, na qualidade de primeiro e de primordial difusor dos frutos da inteligência.
Façamo-nos todos mais humanos, então, não apenas no dia 29 de outubro, mas também no inteiro resto do ano: saudemos o livro, leiamos, enfim. Fica aqui o convite.
(*) Escritor, autor de poesias, contos, crônicas, romances e literatura infantil. É membro da Academia de Letras do MP de Minas, da Academia Municipalista de Letras de MG e da Academia de Letras de Cordisburgo – João Guimarães Rosa.
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