Roberto Sbragia (*)
Durante muito tempo, estabeleceu-se uma divisão clara entre as responsabilidades das universidades e das empresas. Enquanto as instituições de ensino superior se concentravam em transmitir conhecimentos acadêmicos e técnicos, cabia às organizações complementar a formação dos graduados por meio de programas de educação corporativa, treinamentos e iniciativas voltadas ao desenvolvimento de diversas competências, sendo a comportamental uma das principais.
Essa lógica começa a mudar. Diante de um mercado de trabalho mais dinâmico, tecnológico e complexo, práticas antes concentradas no ambiente corporativo passam a ser incorporadas à graduação. O objetivo é aproximar a formação acadêmica da realidade das organizações e preparar profissionais capazes de combinar conhecimento técnico, visão estratégica, habilidades humanas e capacidade de execução.
Essa transformação responde a uma necessidade concreta do mercado. Levantamento realizado pela Ford em parceria com o Datafolha, que ouviu 250 líderes das áreas de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação de diferentes setores e regiões do país, mostrou que 98% das médias e grandes empresas brasileiras enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados.
O dado indica que o desafio não se limita à formação técnica. As organizações também buscam pessoas preparadas para lidar com problemas complexos, trabalhar de maneira colaborativa, comunicar ideias com clareza, adaptar-se às mudanças e tomar decisões em ambientes de incerteza.
Nesse contexto, ganha espaço a formação do chamado profissional ambidestro: aquele que combina excelência técnica com competências comportamentais, visão de negócios e capacidade de transformar conhecimento em soluções práticas. Não se trata de diminuir a importância da especialização, mas de conectá-la a habilidades como liderança, comunicação, negociação, colaboração e relacionamento.
Durante muitos anos, era esperado que essas competências fossem desenvolvidas somente após o ingresso no mercado de trabalho. Hoje, está cada vez mais evidente que esse processo precisa começar na universidade, com a aproximação dos estudantes dos desafios profissionais desde os primeiros anos da graduação.
Para isso, a formação não pode estar centrada exclusivamente na transmissão de conteúdo. É necessário integrar a base acadêmica a projetos reais, desafios propostos por empresas, experiências multidisciplinares, metodologias que estimulem a resolução de problemas, contato com profissionais do mercado e, claro, o trabalho em equipe e a tomada de decisão.
Esse modelo também contribui para formar profissionais preparados para aprender continuamente. Em um ambiente no qual conhecimentos, ferramentas, profissões e modelos de negócio se transformam rapidamente, a capacidade de atualização passa a ser tão importante quanto o conteúdo aprendido ao longo do curso.
O avanço da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais relevante. À medida que a tecnologia assume parte das atividades técnicas e operacionais, as competências humanas ganham importância estratégica. Saber interpretar contextos, exercer julgamento, construir relações, liderar pessoas e conectar diferentes conhecimentos será cada vez mais determinante para a atuação profissional.
O profissional do futuro não será reconhecido somente por seu domínio técnico. Seu diferencial estará na capacidade de conectar conhecimento, pessoas e negócios. Cabe às instituições de ensino antecipar essa formação, preparando desde a graduação um perfil profissional que, no passado, começava a ser desenvolvido apenas dentro das organizações.
(*) Roberto Sbragia é presidente da FIA Business School
