
Vivaldo José Breternitz (*)
A Fitch Ratings é uma das três maiores agências globais de classificação de risco de crédito, ao lado da Moody’s e da Standard & Poor’s. Ela avalia a capacidade de empresas, governos e instituições financeiras honrarem suas dívidas, atribuindo notas que vão de “AAA” (risco mínimo) até “D” (default).
Agora, a Fitch expressou uma das maiores preocupações do mercado, afirmando que uma possível correção no setor de inteligência artificial já desponta como um dos maiores riscos de crédito para a economia global; a empresa evita o uso da expressão “estouro de bolha”, que circula pelo mercado.
O alerta aparece no relatório “Global Risk Outlook” referente ao terceiro trimestre, publicado há poucos dias, em um momento em que os fluxos de capital destinados à IA atingiram tal magnitude que qualquer tropeço trará impactos muito além do setor de tecnologia.
Segundo a agência, “a escala dos investimentos em IA é tal que a exposição da economia e do mercado de capitais a uma correção é significativa”, acrescentando que a forma como os mercados se entrelaçaram com a tecnologia criou vulnerabilidades.
A preocupação já circula em diversos meios há meses e ecoa alertas do Banco de Compensações Internacionais (BIS), o “banco dos bancos centrais”, que recentemente comparou um eventual colapso da IA ao impacto da crise de 2008 nos mercados de crédito.
Os números citados pela Fitch dão concretude ao risco: o índice CAPE do S&P 500 se aproxima dos níveis vistos na bolha das pontocom; esse índice avalia se o mercado de ações está caro ou barato em relação aos lucros. Além disso, a emissão de títulos corporativos nos EUA saltou 26% no primeiro semestre de 2026, sendo que grande parte desse endividamento vem de gigantes como Amazon, Alphabet, Nvidia, Meta, Oracle e SpaceX, que juntas captaram cerca de US$ 182 bilhões, inclusive em mercados europeus.
Com os gastos em expansão acelerada, o riso só aumenta. Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft devem elevar seus investimentos em capital em 75%, alcançando US$ 700 bilhões anuais, ritmo que já supera a geração de caixa dessas empresas.
O risco não é teórico. No início do mês, a Standard & Poor’s rebaixou a nota da Oracle para BBB-, um degrau acima do grau especulativo, dado ao volume de caixa que a empresa vem consumindo para expansão de data centers.
A agência pondera que uma correção moderada seria absorvida, mas um ajuste prolongado poderia trazer “efeitos mais amplos sobre mercados, macroeconomia e crédito, dependendo de sua escala, duração e contágio”.
O fio condutor do pensamento da Fitch é claro: os benefícios reais da IA para o ambiente empresarial ainda são pequenos, difíceis de mensurar, enquanto os riscos se tornam cada vez mais visíveis.
Não se trata de falar em uma correção iminente, mas de reconhecer que boa parte da força recente dos mercados repousa sobre uma aposta cujo retorno permanece incerto. Nesse momento, vale lembrar o ditado latino: “prudentia mater securitatis”, ou “a prudência é a mãe da segurança”.
(*) Vivaldo José Breternitz, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].




