
Uso de gás, 100% renovável, cresce no país
Redação
Existe um mercado em franca expansão, contemplando o transporte, eficiência operacional (leia-se lucro) e meio ambiente: o setor de caminhões movidos a gás. Neste, o biometano merece especial destaque, por ser 100% renovável e emitir 95% menos gases do efeito estufa (GEE). Tecnologia para produzi-lo existe para dar e vender, já a infraestrutura é o grande desafio no país. O tema começa a ganhar projeção, face a necessidade de substituição do diesel, combustível fóssil derivado de petróleo – que movimenta mais de 98% da frota de pesados no país — e odiado pela natureza. Há um longo caminho a ser percorrido? Sim, proporcionalmente às chances disponíveis.
Em meio a conflitos generalizados, do preço do frete à Guerra no Oriente Médio, passando por inflação, taxa de juros e percalços da eleição presidencial, uma boa notícia. A MAT Equipamentos para Gases prevê triplicar seu faturamento até 2027, atendendo novos pedidos para instalação de sistemas de armazenamento e compressão. “Somos uma empresa familiar, de capital nacional, focada em sistemas de cilindros. Primeiro começamos com gases medicinais e GNV e há quatro anos decidimos incorporar o biometano também”, comenta Jorge Mathuiy, diretor comercial.

Decorridos 86 anos de operação, a MAT se internacionalizou e hoje tem faturamento de R$ 180 milhões. Sediada em Jundiaí, interior de São Paulo, a empresa possui filiais nos Estados Unidos, México e Argentina, atendendo toda a América Latina. Com os Estados Unidos o tarifaço não os atingiu, porque já havia alíquota de 50% sobre o aço, para exportação. Os demais mercados estão indo bem no Continente, à exceção da Argentina, onde há “fortes soluços” na economia. Em contrapartida, o Brasil cresce no item combustíveis renováveis.
Para se ter ideia do mercado a ser trabalhado, o Brasil roda sua frota de pesados com mais de 98% de caminhões a diesel. O biometano responde por apenas 0,1%, com 2.500 veículos convertidos. A frota nacional, de 2,24 milhões, já está envelhecida, necessitando de renovação. E esta é a grande janela de oportunidade, uma vez que o biometano movimenta motores com facilidade e economia.
O que é
O biometano é produzido a partir da decomposição de lixo orgânico e dejetos animais. O gás é retirado desse processo (de aterros ou biodigestores), purificado, comprimido e utilizado como combustível. A MAT não faz a captação em aterros, por exemplo. Ela recebe o gás na planta da indústria e a partir daí faz a compressão e armazenamento (em cilindros) e a descompressão quando necessária. O produto (biometano) tem 55 MJ/Kg, ou seja, 55 megajoules por quilograma (medida de energia específica). Para se ter ideia do que isto representa, o GLP (gás de cozinha) tem de 46 a 51 MJ/Kg, a gasolina entre 44 e 46 MJ/Kg e o diesel de 42 a 46MJ/Kg.
O Gás Natural Veicular (GNV) não é a mesma coisa. Ele é um gás natural comprimido e utilizado em veículos leves e, também, por uma pequena parte dos caminhões a gás. Já o Gás Natural Liquefeito (GNL) é o mesmo combustível resfriado a cerca de -160°C, o que reduz seu volume e permite armazenar uma quantidade maior de energia, tornando-o mais adequado para caminhões que percorrem longas distâncias. Em síntese, o biometano possui características físico-químicas muito parecidas às do gás natural, permitindo o uso nos mesmos motores e na mesma infraestrutura de abastecimento utilizada por caminhões a gás.
Líder no mercado latinoamericano, a MAT faz a montagem, das carretas de cilindros em Porto Real (RJ); comprime o gás e depois deixa-o pronto para o engate de um cavalo mecânico e transporte (atualmente a companhia tem parceria com a Scania). No local de recebimento, o sistema MAT faz a descompressão do gás também. Para efeitos de movimentação, o biometano tem autonomia variável de 250 km a 900 km, dependendo do trecho a ser percorrido (urbano, rodoviário, terra batida, asfalto e capacidade dos cilindros).

Corredores Verdes
Para superar a dificuldade de infraestrutura, estão sendo criados os chamados “corredores verdes” – rotas logísticas como a “BioRota” da Copersucar com a ReiterLog, entre o interior e o porto de Santos, em São Paulo, utilizando o biometano a longas distâncias. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (ABEGÁS), o Brasil possui apenas 1,7 mil postos de abastecimento de GNV, sendo a maior parte concentrada em áreas urbanas e nem sempre aptos a atender veículos pesados.
No Paraná existe o projeto “Corredores Sustentáveis”, reunindo 13 postos estratégicos voltados a veículos pesados, conectando São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e o Porto de Paranaguá, segundo o GNPW Group. O Ministério dos Transportes, por sua vez, tem colocado a questão no âmbito das novas concessões rodoviárias, avaliando a obrigatoriedade de postos de abastecimento de gás ao longo dos novos trechos concedidos.
Neste cenário, a MAT acelera o processo de nacionalização dos sistemas, que mantém em parceria com a italiana Graf. Segundo o diretor Jorge Mathuiy, já foram investidos US$ 300 mil, com capital próprio, e agora a empresa avalia as linhas do Finame. Até aqui o “coração do sistema” era importado e agora cabe esse financiamento, voltado a bens de capital fabricados no país.

Enquanto isto, a empresa forneceu em junho último um compressor para a unidade da Solvi, em São Leopoldo (RS). Esta empresa atua na gestão de resíduos em mais de 250 municípios e produz biometano a partir da decomposição de resíduos orgânicos em aterros sanitários. A SPTrans, que estuda a doção do biometano para ter ônibus 100 % movidos a gás, na Capital, em cinco anos, é um outro alvo.
“Enfim, temos mais projetos em andamento, pois o mercado de biometano é bastante promissor”, finaliza o executivo.
Empresas fazem parceria pelo biometano | Jornal Empresas & Negócios




