Estamos criando consumidores cada vez mais sensíveis e empresas cada vez mais agressivas

em A Mente do Cliente
terça-feira, 07 de julho de 2026

Neiva Dourado Martins Mendes (*)

Existe uma contradição acontecendo no mercado. Nunca tivemos consumidores tão emocionalmente sobrecarregados e, ao mesmo tempo, empresas tão agressivas na disputa por atenção. Basta observar o ambiente em que vivemos.

Notificações constantes, urgência permanente, excesso de opções, algoritmos disputando segundos de atenção, são experiências desenhadas para estimular a impulsividade.O cérebro humano está sendo submetido a um volume de estímulo sem precedentes, e o mais interessante é que isso já começa a produzir um efeito visível no comportamento das pessoas.

Os consumidores estão mais sensíveis, cansados, ansiosos e mais intolerantes a experiências ruins. Após décadas trabalhando com experiência do cliente, comportamento humano e análise de interações, percebo uma mudança importante.

As pessoas não estão apenas consumindo produtos, estão tentando administrar desgaste emocional. Esse é um ponto que merece muita atenção. Durante muitos anos, marketing e tecnologia operaram na mesma direção: aumentar o estímulo, as ofertas, as interações, os gatilhos emocionais e a captura de atenção. Funcionou, mas talvez tenhamos chegado perto de um limite porque o excesso de estímulo também produz fadiga cognitiva, e a fadiga muda o comportamento.

Com tantas possibilidades, o consumidor começa a evitar o esforço, a decisão, a complexidade e a evitar ambientes emocionalmente cansativos. Talvez por isso experiências mais simples e eficientes estejam se tornando tão significativas. O mercado ainda acredita que competir é chamar mais atenção, mas talvez as marcas mais inteligentes do futuro sejam justamente aquelas que souberem reduzir o “barulho cognitivo”.

Existe um conceito importante na neurociência chamado carga cognitiva. Em termos simples, significa a quantidade de esforço mental necessária para processar informações, decidir e agir. O problema é que muitas empresas continuam desenhando jornadas extremamente pesadas para cérebros já sobrecarregados. E isso aparece em tudo! Em aplicativos confusos, processos longos, excesso de informação, atendimento fragmentado, comunicação invasiva.

O resultado é um consumidor emocionalmente esgotado e consumidores esgotados não criam vínculo, criam rejeição. O futuro da experiência do cliente não será definido apenas por tecnologia, mas sim pela capacidade das marcas de compreenderem limites humanos. Experiência boa não é apenas a que encanta, é a que não desgasta, que reduz ansiedade, que respeita atenção, tempo e energia mental.

Talvez estejamos entrando em uma nova fase do mercado. Uma fase em que empresas emocionalmente inteligentes terão vantagem sobre empresas apenas tecnologicamente eficientes. Consumidores continuam querendo ser bem atendidos, mas, antes disso, estão querendo simplesmente respirar.

(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).

Interaction Analytics: o EEG do Cliente – Jornal Empresas & Negócios