
Em um mundo em que habilidades globais determinam oportunidades locais, o domínio do inglês é premissa básica de desenvolvimento. Apesar disso, o Brasil enfrenta entraves para oferecer ensino de qualidade no idioma, um desafio que atravessa tanto a educação pública quanto a privada e impacta a competitividade do país, a empregabilidade e a inclusão social.
Pesquisa da Pearson “Como o inglês fortalece o seu futuro” mostrou que 54% dos brasileiros sentem que sua educação formal não os preparou com um nível de inglês para se comunicar adequadamente. Cerca de 56% atribui esta defasagem ao fato de o aprendizado ter sido focado em gramática e vocabulário, e não no uso do idioma em situações reais.
Isso acontece porque muitas escolas ainda tratam o inglês como disciplina curricular isolada, e não como competência estratégica transversal. Sem integração com objetivos de longo prazo, trilhas estruturadas e certificações reconhecidas internacionalmente, o aprendizado perde relevância prática ao estudante. O resultado: baixo engajamento e pouca confiança para aplicar o idioma fora da sala de aula.
O cenário desafiador vai além. Segundo outro estudo da Pearson, o “Aprendizado de Inglês no Brasil”, realizado em parceria com a The Interamerican Dialogue, mesmo os graduandos brasileiros de Letras com habilitação em Inglês não se sentem preparados para ensinar ao concluir o curso. Entre os motivos: não é necessário comprovar proficiência no idioma para se formar, além de uma estrutura curricular predominantemente teórica (apenas 25% das disciplinas são voltadas a aulas práticas ou técnicas).
Esse dado evidencia que, quando a formação docente não prioriza prática e fluência, o impacto se perpetua por gerações de alunos. Investir na capacitação contínua de professores não é uma iniciativa complementar, mas o eixo central de qualquer política educacional com resultados consistentes.
Outro fator estrutural que limita avanços é a desigualdade de acesso digital. Dados da Anatel e do Idec apontam que 35% das pessoas com renda de até um salário-mínimo e 35,6% daquelas que recebem entre um e três salários-mínimos ficaram sete dias ou mais sem internet móvel no período de 30 dias. Entre os consumidores de menor renda, 11,6% ficaram mais de 15 dias desconectados, índice quase seis vezes maior do que o observado entre quem ganha acima de três salários mínimos (2,2%).
As consequências vão além da conectividade: 55,2% deixaram de estudar por falta de acesso. Em um contexto educacional cada vez mais mediado por tecnologia, a exclusão digital se transforma automaticamente em exclusão de aprendizagem e de oportunidades.
É ainda importante destacar que tecnologia e inteligência artificial, apontadas como soluções rápidas para a educação, não produzem impacto real sem bases sólidas. Ferramentas digitais podem potencializar personalização, avaliação e acompanhamento de desempenho, mas só funcionam quando integradas a uma estratégia pedagógica clara, formação docente adequada e políticas públicas contínuas. Caso contrário, tornam-se iniciativas isoladas que ampliam desigualdades em vez de reduzi-las.
Esse ponto tem sido reforçado em debates internacionais sobre o futuro da educação. Acompanhando a Bett UK, o maior evento global de inovação educacional realizado em Londres, como parte da delegação da Pearson Brasil, ouvimos de especialistas e líderes do setor que a tecnologia só gera transformação real quando acompanhada de estratégia sistêmica, desenvolvimento docente e uso consistente de dados educacionais. A discussão global dialoga diretamente com os desafios brasileiros e mostra que o problema não está na falta de soluções, mas na capacidade de implementá-las de forma estruturada e contínua.
No país, há ainda um elemento institucional: a continuidade de políticas educacionais, que não sejam interrompidas a cada mudança administrativa e comprometam avanços a longo prazo.
O Brasil tem diante de si um trajeto estratégico bifurcado. Pode continuar tratando o inglês como conteúdo curricular secundário, ou pode reconhecê-lo como ferramenta estruturante de mobilidade social, inovação e inserção global. Países que avançaram nessa agenda deixaram de ensinar o idioma como matéria e passaram a desenvolvê-lo como competência.
Os caminhos estão claros e passam por três: formação docente contínua e prática, uso inteligente de dados para orientar políticas e decisões pedagógicas, e garantia de acesso digital equitativo. Somadas, essas frentes criam as condições para que tecnologia e metodologias inovadoras realmente transformem a aprendizagem.
(Fonte: Gustavo Jorge, Diretor de Relações Governamentais da Pearson no Brasil).



