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Saúde Mental Virou KPI — Mas Ninguém Sabe Medir

em A Outra Sala
terça-feira, 07 de abril de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Transformamos sofrimento em indicador… mas ainda tratamos como sentimento.

Tem empresa colocando “saúde mental” no dashboard.
Bonito. Moderno. ESG-friendly. Dá até para mostrar no conselho com um gráfico azul e uma frase inspiradora.

O problema é que, na prática, ninguém sabe exatamente o que está medindo.

Porque clima organizacional não é saúde mental.
Satisfação não é segurança psicológica.
E muito menos engajamento é ausência de sofrimento.

Mas seguimos perguntando:

“Você está feliz no trabalho?”

Como se o cérebro respondesse com sinceridade no meio de uma cultura onde dizer “não” custa reputação.

A verdade é simples e desconfortável:
a maioria das empresas está medindo o que é fácil, não o que é real.

Medem percepção.
Medem humor.
Medem adesão a iniciativas.

Mas não medem:

– o medo de errar
– o silêncio em reuniões
– a autocensura
– o esgotamento que virou personalidade
– a performance sustentada por ansiedade

Isso não aparece em formulário.
Isso aparece no corpo. E, às vezes, no atestado.

Criamos uma indústria de wellness para dar conta de um problema que não é de bem-estar, é de estrutura.

Tem empresa oferecendo meditação às 18h… depois de um dia inteiro de urgência artificial, metas inalcançáveis e liderança emocionalmente analfabeta.

É quase poético.
Ou trágico, dependendo do ponto de vista.

Porque wellness não é gestão de risco.
É maquiagem organizacional bem-intencionada.

A NR-1 faz uma virada importante: ela tira a saúde mental do território do “cuidado opcional” e coloca no campo da responsabilidade objetiva.

Mas isso cria um problema novo:

Como medir algo que nunca foi de fato compreendido?

A maioria ainda opera no nível superficial:

– índice de felicidade
– NPS interno
– taxa de participação em programas
– número de sessões de terapia oferecidas

Tudo isso pode ser útil.
Mas nada disso é diagnóstico.

Diagnóstico exige método.
Exige leitura de padrão.
Exige coragem para enxergar o que sustenta o sistema, não só o que aparece na superfície.

Porque sofrimento organizacional não é evento.
É arquitetura.

Ele mora na forma como o trabalho é desenhado.
Na forma como a liderança responde.
Naquilo que é recompensado, e principalmente no que é tolerado.

E aqui entra um ponto que pouca gente quer encarar:

Quando você não mede direito, você não gere.
Quando você não entende, você simplifica.
E quando você simplifica sofrimento humano… você costuma culpar o indivíduo.

“Falta resiliência.”
“Precisa se organizar melhor.”
“Tem que aprender a lidar com pressão.”

Enquanto isso, o sistema continua produzindo exatamente o mesmo tipo de desgaste, só que agora com um relatório bonito dizendo que está tudo sob controle.

A pergunta que a NR-1 traz não é técnica.
É quase filosófica:

Você quer medir saúde mental… ou quer provar que está fazendo algo sobre ela?

Porque são coisas diferentes.

A primeira exige profundidade.
A segunda, apresentação.

Talvez o maior risco psicossocial das organizações hoje não seja o estresse.
Nem o burnout.

É a ilusão de que estamos cuidando… quando, na verdade, só estamos organizando melhor os sintomas.

E isso, sim, é perigosamente mensurável.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.