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Meninas não estão mais frágeis. Estão mais expostas.

em A Outra Sala
terça-feira, 31 de março de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Uma menina no quarto.
A porta fechada.
O celular na mão.

Nada acontece.
E, ainda assim, tudo acontece.

Ela percorre imagens, corpos, opiniões, comparações, violências sutis, algumas nem tão sutis assim. Não responde tudo. Mas tudo responde nela.

Não há grito. Não há cena. Não há crise visível.

Mas há um cansaço precoce…
de quem já entendeu coisas demais.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar trouxe números. Mas, se você olhar com calma, vai perceber que não são números.

São sinais.

41% das meninas relatam tristeza frequente. Ansiedade, irritabilidade, desesperança, pensamentos de autolesão. Um índice quase duas vezes e meia maior do que o dos meninos.

A pergunta não é “o que está acontecendo com elas?”

A pergunta mais honesta seria:

em que tipo de mundo estamos pedindo para elas crescerem?

Meninas hoje não estão apenas crescendo.

Elas estão interpretando o ambiente o tempo inteiro, gerenciando emoções que nem são só delas, aprendendo cedo demais a se ajustar.

O problema não é que elas sentem demais.

O problema é que sentem em ambientes que não sustentam o que sentem.

E isso tem nome, embora a gente evite dizer: adaptação crônica ao desconforto.

Quando a pesquisa fala de distorção de imagem, tentativas de emagrecimento e insatisfação corporal, não está falando de vaidade.

Está falando de controle.

Porque, quando o mundo parece grande demais, imprevisível demais, violento demais, o corpo vira o único lugar onde parece possível decidir alguma coisa.

Mesmo que seja diminuir.
Ou desaparecer um pouco.

Bullying. Cyberbullying. Assédio. Violência sexual.

A gente ainda trata como exceção.

Mas, para muitas meninas, isso já é ambiente.

E crescer em ambiente de ameaça muda a forma de existir.

Elas não aprendem só a perguntar “quem eu sou?”

Aprendem também: como eu me protejo?

E, muitas vezes, isso custa a própria voz.

Os dados mostram que meninos têm dificuldade de expressar emoções. E isso importa.

Porque estamos criando um mundo onde meninas sentem e se sobrecarregam, e meninos sentem sem linguagem para isso.

E esses dois silêncios não se anulam.

Eles se encontram.

E, muitas vezes, se machucam.

Talvez o erro seja continuar tratando isso como uma questão individual.

Como se fosse uma fase, um desajuste ou um problema de regulação emocional.

Mas talvez seja algo mais incômodo: estamos exigindo maturidade emocional de quem ainda está aprendendo a existir, dentro de estruturas que não foram feitas para sustentar essa experiência.

Essas meninas vão crescer.

E vão chegar nas empresas.

Competentes. Sensíveis. Exaustas.

Vão performar excelência, duvidar de si mesmas, ter dificuldade de limite e carregar um cansaço que não aparece em nenhuma avaliação de desempenho.

E então vamos chamar isso de síndrome da impostora, baixa autoestima ou falta de resiliência.

Quando, na verdade, isso começou muito antes.

Talvez a pergunta não seja como tornar meninas mais fortes.

Mas como tornar o mundo menos hostil para quem ainda está aprendendo a ser.

Porque elas não estão frágeis.

Estão cansadas de sustentar o que nunca foi só delas.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.