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Crescer sem estrutura virou risco oculto no novo ciclo econômico

em Destaques
quinta-feira, 05 de março de 2026

Empresas ampliam faturamento mas aumento de porte exige revisão tributária financeira e jurídica para evitar autuações colapso de caixa e perda de previsibilidade

Em um ambiente de crédito mais seletivo, fiscalização eletrônica intensificada e margens pressionadas, empresas brasileiras que expandem receita sem reforçar governança passaram a ampliar também sua exposição a riscos fiscais, trabalhistas e financeiros. O paradoxo do crescimento está na falsa sensação de segurança gerada pelo aumento de faturamento.

Quando a empresa cresce sem revisar regime tributário, fluxo de caixa e contratos, multiplica fragilidades. O faturamento sobe, mas a vulnerabilidade também.

Jhonny Martins, contador e advogado, especialista em estratégia tributária e governança corporativa e vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas nas áreas contábil, jurídica e de gestão, afirma que os números ajudam a dimensionar o risco. Dados do IBGE indicam que a taxa de sobrevivência das empresas após cinco anos varia entre 37% e 40%, índice semelhante ao observado pelo Sebrae entre pequenos negócios. “Muitas empresas não fecham por falta de mercado, mas por ausência de estrutura compatível com o crescimento”, afirma.

Para o executivo, o crescimento desestruturado costuma ser silencioso nos primeiros ciclos. “O problema raramente aparece no primeiro mês de expansão. Ele surge acumulado, em forma de autuação fiscal, passivo trabalhista ou desorganização de caixa. Muitas empresas descobrem tarde que estavam crescendo sem base”, alerta.

O aumento do quadro de funcionários, a entrada em novos estados ou a diversificação de serviços exigem adequações formais que nem sempre acompanham o ritmo comercial. Segundo ele, a informalidade operacional, comum em fases iniciais, torna-se um risco relevante quando o volume de operações aumenta. “Controle que funcionava para um faturamento menor deixa de ser suficiente quando a empresa dobra de tamanho. A estrutura precisa evoluir junto”, observa.

Ele ressalta ainda que organização financeira e assessoria preventiva não devem ser tratadas como custo adicional. “Planejamento tributário adequado, contratos bem estruturados e controle de indicadores são instrumentos de proteção patrimonial. Eles garantem previsibilidade e sustentação de longo prazo”, diz.

Relatórios do Banco Central indicam que ciclos de juros mais elevados tendem a tornar o crédito mais seletivo e criterioso. Empresas com demonstrações financeiras organizadas e governança clara possuem maior facilidade de acesso a financiamento e melhores condições de negociação. “O mercado analisa consistência, não apenas faturamento. Crescer sem estrutura pode afastar investidores e instituições financeiras”, afirma.

O especialista aponta cinco cuidados para crescer com previsibilidade e evitar passivos fiscais e financeiros – Antes de listar as medidas práticas, o especialista destaca que expansão saudável exige disciplina técnica. Crescimento sustentável depende de organização tributária, clareza jurídica e controle financeiro permanente.

  1. Revisar periodicamente o regime tributário – Empresas que ampliam receita podem ultrapassar limites de enquadramento fiscal ou deixar de aproveitar alternativas mais eficientes. “O regime que era adequado há dois anos pode não ser mais. Revisão periódica evita recolhimentos incorretos e autuações futuras”, orienta.
  2. Estruturar fluxo de caixa e indicadores financeiros – Receita não equivale a geração de caixa. Descompassos entre entradas e saídas comprometem a operação. “Sem acompanhamento de margem, endividamento e capital de giro, o crescimento pode gerar estrangulamento financeiro”, explica.
  3. Formalizar contratos e revisar obrigações trabalhistas – Expansão envolve novos fornecedores, parceiros e colaboradores. A ausência de formalização amplia risco de litígios. “Contrato claro define responsabilidades e reduz disputas. Compliance trabalhista evita passivos acumulados”, afirma.
  4. Implementar processos e delegação estruturada – Centralização excessiva limita escalabilidade. “Empresa que depende exclusivamente do fundador é vulnerável. Processos definidos e metas claras permitem crescer com controle”, diz.
  5. Adotar assessoria integrada e preventiva – Contabilidade, jurídico e gestão financeira devem atuar de forma coordenada. “Identificar risco antes da fiscalização custa menos do que remediar. Crescimento exige acompanhamento técnico contínuo”, destaca.

Ao avaliar a contratação de suporte especializado, o executivo recomenda analisar experiência comprovada, atuação consultiva e capacidade de integração entre áreas técnicas. “Não basta cumprir obrigações acessórias. É preciso interpretar números e antecipar cenários”, afirma.

Ele reforça que o novo ciclo econômico não pune o crescimento, mas penaliza improvisos. “Faturar mais é positivo, mas não pode ser o único indicador de sucesso. Empresa saudável é aquela que cresce com segurança jurídica, organização financeira e governança clara. Sem estrutura, o crescimento deixa de ser conquista e passa a ser risco oculto”, conclui.