
Apesar dos avanços na automação e das recentes demissões em grandes empresas de tecnologia, especialistas preveem que a inteligência artificial irá transformar a função dos desenvolvedores, em vez de eliminá-la
A adoção da inteligência artificial (IA) pelas grandes empresas de tecnologia tem reconfigurado a demanda por desenvolvedores. No início desse semestre, a Microsoft anunciou que demitirá cerca de 4% de seu quadro global, ou aproximadamente 9 mil funcionários, em meio ao forte investimento em IA. Paralelo a isso, de acordo com a previsão do Fórum Econômico Mundial (WEF) 2025, a inteligência artificial poderá eliminar até 92 milhões de empregos nos próximos anos, ao mesmo tempo que há uma projeção para a criação de 170 milhões novos postos de trabalho.
Para o diretor de tecnologia da Infoworker, Frederico Stockchneider, o movimento reflete uma mudança de foco no setor. “A inteligência artificial está provocando uma reconfiguração das funções, não uma substituição em massa. As empresas que souberem integrar a IA aos times humanos sairão na frente”, afirma. Segundo ele, a tendência é que a tecnologia assuma tarefas operacionais e repetitivas, permitindo que os profissionais se concentrem em desafios estratégicos e criativos, onde o toque humano continua indispensável.
Nesse sentido, empresas como a Atlassian estão investindo em ferramentas de produtividade e colaboração para equipes de desenvolvimento. Recentemente a empresa confirmou a aquisição da plataforma de inteligência para desenvolvedores DX, com o objetivo de aprimorar a experiência do cliente, fornecendo insights sobre investimentos em inteligência artificial, uma aposta clara em produtividade e complementação, não apenas automação.
IA E A ROTINA DO DESENVOLVIMENTO
Em um estudo recentemente publicado pela Machine Intelligence Research Institute (METR), após testes com desenvolvedores seniores, verificou-se que o uso de IA para tarefas diárias fez com que a velocidade da entrega caísse 19%, em vez de aumentar. Essa constatação reforça que a inteligência artificial ainda exige adaptação e não garante ganhos automáticos.
Para Stockchneider, o resultado mostra que a inteligência artificial ainda está em fase de amadurecimento nas rotinas de desenvolvimento. “Os modelos de IA são excelentes em tarefas estruturadas, mas ainda precisam de direção humana para gerar valor real. Quando usados sem critério, acabam aumentando o retrabalho e reduzindo a produtividade”, explica. Ele destaca que a eficiência vem da combinação entre experiência técnica e uso estratégico da tecnologia, não da substituição completa do desenvolvedor.
O especialista conta que, na vanguarda dessa integração, a Infoworker adotou IA para dar suporte a equipes de desenvolvimento, mas com foco claro: usar a tecnologia em fases específicas, principalmente nas tarefas repetitivas ou no auxílio à criação de testes automatizados, e deixar o núcleo criativo e as regras de negócio complexas nas mãos humanas. “Mesmo com os avanços, ainda não é possível criar soluções robustas e seguras usando exclusivamente a inteligência artificial”.
Ele ressalta que o “toque humano”, como experiência, visão de longo prazo e criatividade, permanecem como diferencial das equipes de desenvolvimento. Nesse cenário, a IA aparece como aliada: reduz o tempo de atividades repetitivas, melhora a eficiência das etapas auxiliares e libera o profissional para lidar com os aspectos estratégicos do produto.
“VIBE CODING”
A inteligência artificial também tem impulsionado algumas mudanças na relação entre usuários e tecnologia. Nos EUA, por exemplo, tem crescido um termo peculiar no mercado: o “vibe coding”. O termo está relacionado à ideia de que pessoas sem formação técnica podem usar IA para desenvolver apps web ou mobile. Mas, para Stockchneider, a prática mostra, porém, que esses perfis funcionam bem em protótipos ou aplicações simples, mas têm limitações em projetos de larga escala ou envolvendo regras de negócio sofisticadas, ilustrando bem as limitações da automação.
“A ideia de que qualquer pessoa pode criar um aplicativo apenas com ajuda da IA é interessante, mas na prática funciona apenas para projetos simples. Quando entram em cena regras de negócio complexas e demandas de escala, o conhecimento técnico e a experiência humana continuam indispensáveis”, afirma. Para ele, a inteligência artificial está de fato transformando o perfil dos desenvolvedores, exigindo novas habilidades e capacidade de adaptação, mas ainda não é uma substituta completa. “A produtividade real vem do equilíbrio entre tecnologia e talento humano”, conclui.


