J. B. Oliveira

“Caso consigam serem os mais votados...”

 

                                                                                                                                                              * J. B. Oliveira

 

A frase acima está na Folha de São Paulo de hoje, segunda-feira, 28 de maio de 2018, página A6, na matéria: “Estreantes nas urnas, filhos de políticos tentam vagas no Legislativo”, redigido por João Pedro Pitombo.

Tenho recomendado aos meus alunos de Oratória, de Redação e de Gramática que, para aumentar seu vocabulário e assimilar a correta construção frásica, devem ler livros e jornais. Nos livros, vão encontrar o estilo literário, com seus detalhes, descrições e composições com minúcias, enquanto que, nos jornais, terão modelo de redação sintética, concisa e precisa, sem perda de qualidade e de conteúdo. Ambos – livros e jornais – devem servir de exemplo para seus leitores. Logo, devem redobrar os cuidados para não serem maus exemplos!

No caso presente, não há qualquer justificativa para que o segundo verbo: “ser” seja flexionado!

A verdade é que as circunstâncias que envolvem o infinitivo pessoal flexionado não são simples! A começar pelo fato de que se trata de idiotismo, que é uma forma peculiar ou exclusiva de uma língua. O Infinitivo Pessoal Flexionado só existe em Português...

Outro aspecto interessante é que, como o Português nasceu do Latim, quando temos alguma dúvida cá, nós vamos à fonte latina para encontrar a resposta. É simples, não? Não!

Porque também o Latim NÃO possui o infinitivo pessoal flexionado!

Essa forma surgiu por volta do século XII, na passagem do Português pelo Galego. Por isso, seu uso é bastante controverso...

Entretanto, um princípio indiscutível é que o infinitivo não se flexiona quando ele e o outro verbo, que o acompanha, têm o mesmo sujeito. É o que ocorre no exemplo em foco: “Caso (eles, os filhos de políticos) consigam serem os mais votados...” Aqui o que temos é uma forma composta, perifrástica, em que os dois verbos formam uma só unidade, tendo um só sujeito.

O plural seria correto se cada verbo tivesse o seu sujeito, assim: “Nós acreditamos serem eles os melhores candidatos”.

O mesmo texto traz duas outras incorreções, ao que parece, aparentemente resultantes de descuido. A primeira encontra-se na referência feita a João Campos, filho do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos: “Ele vem sendo preparado para a disputa desde que a morte do pai, na campanha presidencial de 2014”. Ora, ou esse “que” está a mais, e ficaria “desde a morte do pai...”, ou faltou um verbo, caso em que a construção seria “desde que ocorreu a morte do pai...”.

Isso comumente acontece quando se decide mudar alguma coisa na frase e fica algo sobrando ou faltando...

A outra incorreção encontra-se na parte alusiva a Otto Alencar Filho. A expressão saiu assim: “Ele diz que optou por concorrer um mandato a pedido não do pai, o senador Otto Alencar (PSD), mas de colegas do partido”. Mais uma vez, parece ter havido mudança no texto sem a devida adequação no contexto. Para ficar correto, ou seria colocada uma preposição antes do artigo indefinido, assim: “...optou por concorrer a um mandato”; ou se substituiria o verbo concorrer por seu equivalente disputar, construindo a sentença desta forma: “... optou por disputar um mandato”.

Como o verbo concorrer é transitivo indireto, exige o uso da preposição, o que não ocorre com disputar, que é transitivo direto, logo, sem preposição.

Ao apontar essas filigranas gramaticais, faço-o com respeito, pois também, involuntariamente, sou vítima delas, e mais ainda por respeito aos leitores do jornal!

Por fim, cumpre afirmar que esses leves lapsos de forma não invalidam o bom conteúdo do artigo. Mas são detalhes. E como sugere Magalhães Rosa, o diabo se esconde nos detalhes!

 

*Dr. J. B. Oliveira, Consultor Empresarial e Educacional, é

Advogado, Professor e Jornalista. Pertence à Academia Cristã

de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo

www.jboliveira.com.br

Mais artigos...

  1. “O amor é forte como a morte”.
  2. Novos tempos na Política?
  3. O QUE SE ESPERA DO ADVOGADO
  4. “Eu quero é rosetar...”
  5. A importância histórica da Grafotécnica e Documentoscopia
  6. Sociedade Amigos da Cidade e o Zoneamento Urbano
  7. Influências americanas na língua italiana...
  8. Conteúdo e Forma
  9. “Toda a mulher sábia edifica a sua casa”
  10. Licitude, Moral, Ética... e algo mais!
  11. Silêncio...
  12. Verbos diferentes para seres diferentes...
  13. E “O homem do tempo”, heim?
  14. Ela o chamou pelo nome completo? Hum...!
  15. EDUCAÇÃO: OBJETIVOS E RECURSOS. E NOSSA REALIDADE
  16. O turismo descollorido
  17. Haviam ou havia?
  18. Entendeu? ... Ou quer que eu desenhe?
  19. “Aquele acentozinho enjoado chamado crase...”
  20. “O pior cego é o que não quer ver”
  21. “Fale agora ou cale-se para sempre...”
  22. “...muitas pessoas que sofrem de depressão sentem-se melhores...”
  23. É um momento 'onde' só a acusação tem vez e tem voz
  24. “Esse corretor mais atrapalha do que ajuda”!
  25. Línguas parecidas...I
  26. Os pronomes possessivos. E o comportamento dos filhos
  27. Comunicação visual: o que elas fazem. E eles não entendem...
  28. O JOVEM E A EDUCAÇÃO : UM BINÔMIO CRÍTICO
  29. Jerry Lewis, Ruy Castro e Amar e gostar...
  30. A prolixidade castigada...
  31. Pó... ou Vida?
  32. “20% das mais de 18 milhões de moedas...”
  33. Codificação e decodificação
  34. Grama: no jardim ou na balança?
  35. Uma arroba de história...
  36. Um sério RUÍDO na comunicação interpessoal...
  37. Alternativas. Na aviação e na Oratória...
  38. HÁ 39 ANOS...
  39. IMPROVISO!
  40. Recordar é viver...
  41. Variações do mesmo tema ...
  42. SAUDOSISMO... E CIVISMO!
  43. Afinal, é Este ou Esse?
  44. É PÁSCOA. ONDE ESTÃO O COELHINHO E OS OVOS?
  45. A EDUCAÇÃO E A ÉTICA
  46. Que palavra usar: Humanização ou Fragilização da lei?
  47. Comunicação e Relacionamento Humano
  48. Línguas parecidas
  49. Duas fases da PALAVRA no grupo de Cristo
  50. DUAS PERGUNTAS PERTINENTES. E PREOCUPANTES
  51. No princípio era o Verbo
  52. O PODER DA IMPRENSA LIVRE
  53. A EDUCAÇÃO E A IMPRENSA
  54. EM ORATÓRIA, É PRECISO ESTAR SEGURO!
  55. PLEONASMOS: ESCRACHADOS, DISSIMULADOS E SUTIS...
  56. Travas e entraves da comunicação
  57. A vírgula... ah! a vírgula!
  58. BENEFÍCIO, PREVIDÊNCIA E PROVIDÊNCIA...NA GRAMÁTICA
  59. DELITOS NOVOS versus LEIS ANTIGAS...
  60. Uma palavra para ser usada... com cuidado!
  61. Juizeco e Chefete...
  62. UM POUCO DO DESCALABRO EDUCACIONAL
  63. O xis da questão...
  64. Inibição! Como e porque surge!
  65. COMO ANDA SUA ORATÓRIA FAMILIAR?
  66. PREMEIO ESSE EXCECIONAL SECTOR, SEM DECECIONAR NEM INDEMNIZAR!
  67. OS DOZE TRABALHOS DE...HÍFEN!
  68. COMO É QUE É MESMO?
  69. A Polissemia e o trágico fim do guia de turismo!
  70. A QUADRA QUE ENQUADRA...
  71. PALAVRAS “DENOREX”: PARECEM ... MAS NÃO SÃO!
  72. Oratória Negocial
  73. Quando o PLURAL não é o plural do SINGULAR...!
  74. “AMANHÃ EU VÔ NUM VIM TRABALHÁ....”
  75. A velha questão do “VOCÊ”...
  76. PALAVRINHAS que dão vontade de dizer um PALAVRÃO!
  77. “AS PREPOSIÇÕES E AS CONJUNÇÕES NA GRAMÁTICA E TAMBÉM NA PRÁTICA”
  78. “AS EMPRESAS SE ADEQUAM ÀS NOVAS CONDIÇÕES”
  79. A IMPORTÂNCIA DO LAZER
  80. Agüentar tranqüilo nunca mais. Trema, trema!
  81. PLEONASMO NOS OLHOS
  82. “ESTOU CORRENDO ATRÁS DO PREJUĺZO…”
  83. UM MAGNO EQUÍVOCO
  84. SAVOIR FAIRE: COMO AS ÉPOCAS MUDAM AS PALAVRAS...
  85. BRIGADO POR QUÊ?
  86. “DIGITATORE TRADITORE”
  87. VOCÊS SABEM O QUE É DOCE DELEITE?
  88. NÓS E A PÁTRIA
  89. Afinal, qual é a posição correta das bandeiras?
  90. ANUNCIARAM O HINO NACIONAL! O QUE DEVO FAZER?
  91. EXÓRDIO... QUE REMÉDIO É ESSE?
  92. Por conta dos vícios de linguagem...!
  93. O ÓPTIMO ACTO DE ADOPTAR OBJECÇÕES
  94. No novo acordo, acentuação rima com recordação...