O Afeganistão segue marchando para o atraso: o Talibã proibiu o uso de smartphones por funcionários públicos e por seus próprios membros. Acredita-se que a qualquer momento essa proibição possa atingir o restante da população.
Vivaldo José Breternitz (*)
A notícia foi veiculada pelo jornal britânico The Guardian, que faz menção a um vídeo que vem circulando pela internet, onde um oficial talibã aparece comunicando a proibição, curiosamente usando um smartphone, enquanto outro indivíduo destrói aparelhos. O documento diz que “se alguém usar um celular, ele será quebrado e punições legais e da sharia serão aplicadas ao infrator”. A sharia é a lei islâmica, e exceções só poderiam ser concedidas pelo líder supremo do país, Hibatullah Akhundzada.
Notícias provenientes do Afeganistão dão conta que a aplicação da medida ocorre de forma irregular: em algumas regiões, atinge apenas funcionários do governo; em outras, já se estende a mulheres, profissionais de saúde, professores, estudantes etc.
A decisão surge em meio a esforços crescentes do Talibã para isolar o país. Em setembro, autoridades ordenaram um bloqueio da internet por dois dias, justificando-o como forma de “prevenir a imoralidade”. O apagão paralisou o comércio, afetou serviços de emergência e até a aviação.
Entre os fatores que podem ter impulsionado a proibição está a onda de protestos em Herat, a terceira maior cidade afegã, após prisões de mulheres e meninas por “uso inadequado do hijab”, o véu cujo uso é obrigatório. Vídeos das manifestações mostraram o Talibã disparando contra a multidão, matando pelo menos duas pessoas.
Ainda antes dos protestos, porém, já havia restrições ao uso de celulares, motivadas por temores de vazamentos de informações e pela percepção de que os aparelhos reduziriam a produtividade dos funcionários públicos: em Herat, servidores relataram que seus telefones foram confiscados e destruídos.
Problemas como perda de tempo online e vazamento de informações podem acontecer em qualquer ambiente, público ou privado. A diferença está como esses problemas são enfrentados e a escolhida pelo Taliban certamente não é a melhor para o país.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e membro da Congregação da Faculdade de Medicina de Jundiaí – [email protected].
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