
Seattle aprovou uma moratória de um ano para a instalação de novos data centers na cidade. A decisão foi tomada por unanimidade pelo City Council, algo como a Câmara Municipal da cidade, que se torna a maior cidade americana a adotar uma medida desse tipo, em meio ao crescente movimento contra a infraestrutura de inteligência artificial.
Vivaldo José Breternitz (*)
Vale a pena lembrar que Seattle é sede de gigantes como Amazon e Microsoft, que vem se empenhando em construir mais e maiores data centers ao redor do mundo.
Os membros do City Council apresentaram a pausa como uma oportunidade para elaborar regras específicas voltadas aos data centers, conhecidos pelo alto consumo de energia e água, protegendo os moradores dos riscos ambientais. Segundo a prefeita Katie Wilson, o período também permitirá avaliar se os datacenters representam “um bom uso do solo urbano” e, eventualmente, impor novas exigências, como investimentos em transporte público e habitação em troca de licenças para construção.
A medida ganhou força após reportagem do Seattle Times revelar que cinco projetos de datacenters poderiam aumentar exponencialmente o consumo de energia na cidade. Grupos de trabalhadores empresas de tecnologia, incluindo o Amazon Employees for Climate Justice, organizaram reuniões com as autoridades municipais e uma campanha que resultou em quase 100 mil e-mails enviados mesmas. Consta que a Amazon vem adotando medidas contra esses trabalhadores.
Ben Jones, porta-voz da organização ambiental 350 Seattle, afirmou que “um número enorme” de trabalhadores se mobilizou contra os data centers porque a IA se tornou “sinônimo de pessoas perdendo seus empregos”. Amazon e Microsoft já demitiram milhares de funcionários na região, enquanto projetam investir US$ 390 bilhões em inteligência artificial até 2026.
Há alguns dias, uma emenda aprovada por unanimidade pelo City Council permitiu que data centers já existentes solicitem expansões relativamente pequenas durante a moratória. Ativistas temem que isso provoque um aumento súbito na demanda de energia e enfraqueça o objetivo da pausa, mas os conselheiros justificaram a medida como forma de diferenciar data centers que atendem serviços públicos, como hospitais e serviços de emergência, dos grandes complexos voltados à IA.
Agora, ativistas de Seattle trabalham em conjunto com organizações de outras cidades do estado de Washington, como Spokane e Walla Walla, para ampliar a campanha contra os data centers, buscando fazer com que medidas semelhantes sejam tomadas em todo o estado.
No Brasil, onde fatores como o relativamente baixo custo da energia elétrica atraem novos data centers, políticos tem alardeado que essas instalações são muito importantes para o país, o que até agora não foi comprovado, inclusive por gerarem pouquíssimos empregos qualificados.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].


