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Promessas de empregos gerados por centros de dados contrastam com a realidade

em Tecnologia
quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Com cada vez mais frequência políticos anunciam de forma grandiloquente a instalação de grandes data centers, anunciando-os como instrumentos de geração de empregos e crescimento econômico em suas bases eleitorais.

Vivaldo José Breternitz (*)

Mas a realidade é bastante diferente do que é anunciado, como mostra uma matéria do portal “Rest of World” tratando da instalação de data centers no Chile – pode-se supor que o que acontece ali acontece, ou acontecerá, no Brasil.

Em Quilicura, naquele país, está instalado o único centro de dados operacional do Google na América Latina. Nele, corredores repletos de servidores fornecem a infraestrutura invisível da nuvem e da inteligência artificial, mas em pleno dia, o local parece deserto, exceto pela presença de seguranças.

Em junho, o presidente chileno Gabriel Boric anunciou que um novo complexo da Microsoft criaria mais de 81 mil empregos. Representantes da empresa afirmaram que esses números incluem vagas diretas e indiretas, com cerca de 17 mil posições ligadas à TI propriamente dita. Em meio ao desemprego acima de 8% desde 2023, as promessas foram celebradas nas redes sociais.

No entanto, documentos oficiais revelam uma realidade mais modesta. Uma análise de 17 projetos de instalações como essa submetidos à avaliação ambiental desde 2012 indica que apenas 1.547 empregos diretos seriam criados, sendo a maioria das vagas voltada a segurança e limpeza, com alguns centros oferecendo menos de 20 empregos.

Segundo a agência InvestChile, 32 centros de dados devem ser construídos no país até 2028, por 11 empresas internacionais – mas esses projetos devem gerar apenas 909 empregos permanentes. A pesquisadora chilena Paz Peña Ochoa fala em uma “bolha de expectativas”, que não se concretizará.

A Microsoft confirmou suas estimativas e destacou iniciativas de capacitação digital que teriam beneficiado mais de 330 mil pessoas no país – observe-se que essas iniciativas geralmente não passam de cursos muito básicos que são oferecidos via internet – tem algum valor, mas não podem ser considerados algo que produzirá efeitos de longo prazo.

Um profissional de TI que atuou em um desses centros de dados no Chile relatou ao Rest of World que, além dele e seis outros colegas que trabalhavam em turnos, os demais funcionários eram seguranças ou faxineiros.

Informações a respeito do assunto tornadas públicas por Google e Microsoft para justificar seus números, incluem empregos temporários, como os da construção dos data centers, deixando de informar quantos serão os empregos permanentes a serem gerados para pessoal qualificado.

O crescimento global da computação em nuvem e da IA tem impulsionado a construção desses centros de dados, cuja capacidade deve triplicar até 2030.

Preocupações com o impacto ambiental dessas unidades, especialmente em termos de consumo de água e energia elétrica, vem se avolumando em todo o mundo, sendo necessário que a sociedade se conscientize dos problemas derivados desse impacto.

Não se pode ser contra os grandes centros de dados, mas transparência a seu respeito é necessária.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].