
Vivaldo José Breternitz (*)
Segundo Handre, um perfil do X, (antigo Twitter), em 73 a. C. o governo romano distribuía gratuitamente a 40 mil cidadãos os grãos com os quais era fabricado o pão.
Em 46 a.C., quando Júlio César assumiu o poder absoluto em Roma, 320 mil pessoas recebiam sua ração mensal de grãos. Essa expansão de oito vezes ocorreu em cerca de três décadas e mostra o que costuma acontecer nos chamados “estados de bem-estar social”.
O crescimento aconteceu de forma incremental. Políticos procuravam ampliar o número de pessoas que tinham direito ao benefício; cada expansão normalizava a próxima. O cidadão que antes considerava vergonhoso receber o auxílio, passou a esperá-lo, depois a exigi-lo, e finalmente a se organizar politicamente para protegê-lo. Milhares de pessoas migraram para Roma com o objetivo de receberem o benefício.
Esse é o mecanismo central identificado por pensadores de livre mercado em todas as épocas: uma vez criado um programa de transferência de renda, cria-se também uma base de apoio para ele. Os beneficiados votam, os políticos consolidam suas carreiras e. no caso de Roma, os produtores e comerciantes de grãos que abasteciam o Estado passaram a ter interesse em manter os benefícios vivos.
César conseguiu reduzir o número de beneficiários para 150 mil por meio de auditorias de verificação de reais necessidades. Foi uma de suas medidas mais coerentes na área econômica. César foi assassinado e seus sucessores, silenciosamente, deixaram os números subirem novamente.
O que o auxílio exigia? Importações maciças de grãos da Sicília, Sardenha e Egito, organizadas por logística estatal, a custos estatais, financiadas por impostos e valores tomados de estrangeiros durante guerras.
A partir de um certo momento, as fontes de receita derivadas das guerras secaram, mas a obrigação permaneceu. Roma havia emitido um cheque contra futuros sucessos militares, mas esses sucessos acabaram não chegando.
A lição é simples: distribuir um benefício é distribuir dependência. Distribuir dependência é dar poder político para quem controla a distribuição. O auxílio em grãos não a única causa da queda do Império Romano, mas ao tornar reformas politicamente quase impossíveis, também contribuiu para isso.
Refletindo sobre o assunto, talvez seja possível encontrar semelhanças sobre o que acontece em um certo país da América do Sul…
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].



