
Há alguns dias, Elon Musk apresentou o tão aguardado Tesla Roadster, um carro esportivo voador, elétrico de alto desempenho.
Vivaldo José Breternitz (*)
A apresentação teve um estilo espetacular, como Musk gosta: o veículo subiu por uma rampa, lançou-se ao ar de ponta-cabeça e, utilizando propulsores a gás, realizou uma aterrissagem suave. Minutos depois, outro Roadster protagonizou uma cena digna de Evel Knievel, acelerando em uma rampa e saltando sobre uma fileira de seis veículos da Tesla, incluindo a cabine de seu caminhão semirreboque e aterrissando também suavemente.
A demonstração foi impressionante; no entanto, permanecem dúvidas importantes, como a possibilidade de os órgãos reguladores algum dia considerarem o veículo apto para circulação nas estradas e, mais ainda, no espaço aéreo. Outra questão é saber se os carros usados na apresentação se parecem minimamente com a versão que eventualmente será vendida aos consumidores, caso ela realmente chegue ao mercado.
Outros observadores afirmaram que os dois Roadsters utilizados naquele dia eram totalmente diferentes entre si, tendo cada um deles sido preparado para a apresentação que fizeram.
Entre esses observadores está o cientista da computação frequentemente chamado de “padrinho da inteligência artificial”, Yann LeCun, atualmente o principal cientista de IA da Meta. Ele classificou a demonstração do Roadster como uma simples ação de marketing e classificou a apresentação como interessante, mas que um veículo como esse é inviável em escala comercial.
Teatralidade não é novidade para Musk. Em 2016, a Tesla impressionou o mundo com um vídeo promocional que mostrava um carro autônomo circulando por vias públicas e obedecendo a semáforos. Na época, Musk afirmou que aquilo era uma prova clara de que “a Tesla dirige sozinha”. Posteriormente, porém, engenheiros da própria empresa admitiram que toda a demonstração havia sido encenada.
Em seu evento “We, Robot”, realizado em 2024, a Tesla voltou a chamar atenção ao exibir seus robôs humanoides Optimus servindo bebidas, dançando no palco e conversando com os participantes. No entanto, logo ficou claro que cada robô estava sendo controlada remotamente por operadores humanos.
De qualquer forma, é impossível verificar exatamente o que foi demonstrado, já que a Tesla não permite que o público, incluindo jornalistas, examine os componentes do veículo. Isso mantém em aberto a principal questão: quanto do espetáculo apresentado corresponde a uma tecnologia pronta para uso real e quanto ainda pertence ao terreno dos espetáculos cuidadosamente produzidos.
Vale lembrar que Musk, além do espetáculo, cuida com muito cuidado de temas ligados ao dinheiro: já é possível, mediante um depósito de US$ 250 mil, entrar numa fila para aquisição do carro, porém o documento assinado quando do depósito, deixa claro que não existem prazos nem a certeza da entrega do veículo, e que o pagamento simplesmente registra o interesse do comprador pelo Roadster.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor, diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas e pesquisador colaborador da Faculdade de Medicina de Jundiaí – [email protected].

