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Inteligência artificial pode utilizar data centers no espaço

em Tecnologia
segunda-feira, 03 de novembro de 2025

Depois dos data centers submarinos, começa-se agora a falar em data centers no espaço. Isso acontece porque a inteligência artificial exige estruturas cada vez maiores para armazenamento e processamento de dados, que para serem atendidos na Terra, necessitam de grandes quantidades de energia elétrica e água, impactando fortemente o meio ambiente.

Vivaldo José Breternitz (*)

Empresas como a Starcloud, especializada em data centers, já vêm trabalhando no assunto, mas agora o tema começa a atrair grandes nomes da tecnologia. Em maio, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, adquiriu a Relativity Space, empresa que atua na área de foguetes, motivado por seu interesse em estruturas de computação fora da Terra. No início de outubro, o fundador da Amazon, Jeff Bezos, afirmou acreditar que grandes data centers operarão no espaço dentro de 10 a 20 anos.

Agora, é a vez de Elon Musk entrar na conversa. O empresário, cuja SpaceX controla a maior infraestrutura espacial do planeta, demonstrou interesse pelo assunto. Após uma reportagem do site Ars Technica sobre dificuldades para construir e operar grandes centros de dados no espaço, Musk comentou no X (antigo Twitter): “basta ampliar os satélites Starlink V3, que têm links a laser de alta velocidade. A SpaceX vai fazer isso.”

Para os defensores da ideia, as vantagens são evidentes: energia solar ilimitada e gratuita, além da eliminação dos impactos ambientais gerados pela construção desses complexos na Terra, que vem enfrentando resistência crescente. Já os críticos alertam que os custos e desafios tecnológicos tornam o projeto economicamente inviável, ao menos por enquanto.

O histórico da SpaceX desafia o ceticismo. Sua constelação de satélites Starlink já provou ser possível oferecer internet de alta velocidade a milhões de usuários no mundo todo, com lucro. Se Musk acredita que essa arquitetura pode ser adaptada para data centers, o setor dificilmente poderá ignorar a ideia.

“O impulso vindo dos grandes nomes da tecnologia merece atenção”, disse Caleb Henry, diretor da consultoria Quilty Space. Segundo Henry, os satélites já executam parte das funções essenciais de um data center, como armazenar, processar e transmitir dados e os data centers espaciais seriam o próximo passo nessa área.

Os céticos lembram, porém, que essa infraestrutura exigiria satélites gigantes, com vastos painéis solares, para competir com centros terrestres. Ainda assim, os novos Starlink V3 podem mudar o jogo – enquanto os modelos atuais da SpaceX têm capacidade máxima de 100 Gbps, o V3 deve multiplicar essa capacidade de transmissão de dados por dez, chegando a 1 Tbps.

A SpaceX planeja colocar dezenas de satélites V3 em órbita em cada lançamento do foguete Starship, possivelmente já a partir do primeiro semestre de 2026. Os primeiros satélites Starlink, lançados há pouco mais de cinco anos, pesavam cerca de 300 kg e transmitiam 15 Gbps.

Os V3, com 1.500 kg, simbolizam não apenas um salto tecnológico, mas também o possível início de uma nova corrida, a dos data centers espaciais.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].