
A inteligência artificial acelera a “uberização” do trabalho, transformando empregos formais em tarefas fragmentadas e terceirizadas; o fenômeno começou com motoristas e entregadores e agora alcança profissionais qualificados.
Vivaldo José Breternitz (*)
Os que trabalham nesse formato em países de língua inglesa são chamados “gigworkers”. O termo “gig” vem do jazz, significando originalmente apresentações curtas; hoje, descreve o trabalho em plataformas como Uber, 99 e outras.
A promessa era sedutora: autonomia, flexibilidade, maiores ganhos. A realidade, porém, é bem menos generosa. Milhões de trabalhadores vivem praticamente sem direitos como salário-mínimo, férias, seguro de saúde ou seguro para acidentes. A resistência surge na forma de greves e criação de sindicatos, mas especialistas alertam: sem políticas públicas robustas, a exploração tende a se expandir para todos os setores.
Um exemplo, trazido pelo jornal britânico The Guardian, é o da fintech sueca Klarna, que em 2024 demitiu centenas de atendentes, substituindo-os por um chatbot de inteligência artificial; a medida visava economizar milhões de dólares. Um ano depois, diante das reclamações de consumidores sobre a queda na qualidade do atendimento, a empresa voltou atrás, mas não da forma tradicional. Em vez de recontratar atendentes para trabalho no formato convencional, passou a recorrer a trabalhadores terceirizados: o chatbot responde às dúvidas mais simples, enquanto os humanos, contratados como autônomos, sem maiores direitos, lidam com casos complexos.
Esse episódio ilustra como a inteligência artificial está remodelando o mercado de trabalho. Estudiosos do tema concordam que a tecnologia não elimina necessariamente os empregos, mas fragmenta funções, transferindo parte delas para algoritmos e deixando o restante para trabalhadores sem vínculo formal. O resultado é a expansão da chamada “gig economy”.
Segundo a socióloga Alexandrea Ravenelle, autora do livro Hustle and Gig, ainda sem tradução para o português, a transição do “emprego de carreira” para o “bico” é acelerada pela IA. Empresas descobrem que podem terceirizar partes de funções, contratando autônomos em vez de empregados com maiores direitos. A antropóloga Mary Gray e o cientista da computação Siddharth Suri, autores do livro Ghost Work, também não traduzido para o português, reforçam: não há evidência de que postos de trabalho estejam desaparecendo em massa, mas sim de que a tecnologia facilita a desestruturação do emprego formal em nome da redução de custos.
Dados da Upwork, uma das maiores plataformas de trabalho freelancer, mostram que 60 milhões de americanos, 39% da força de trabalho, já atuam como freelancers ou gig workers. A previsão é que esse número chegue a 86 milhões em 2027, metade da população ativa. O crescimento mais rápido ocorre entre profissionais qualificados: redatores, analistas financeiros, advogados, programadores e atendentes.
Esse movimento ameaça conquistas históricas. “Proteções que nossas bisavós conquistaram estão sendo desmanteladas”, alerta Ravenelle.
Estudo recente de Ravenelle revela que músicos e atores também estão sendo empurrados para a gig economy, produzindo conteúdo para treinar ferramentas de inteligência artificial, que, ironicamente, irão substituir profissionais como esses, principalmente na produção de vídeos.
A uberização chegou até à enfermagem. Plataformas como ShiftMed e CareRev oferecem trabalho em turnos, via aplicativo, apregoando flexibilidade. Na prática, enfermeiros relatam salários menores, competição por vagas e necessidade de comprar equipamentos básicos. Em 17 estados americanos, essas empresas já são reconhecidas como “plataformas de saúde”, escapando de regulações trabalhistas.
Para combater o que vem se tornando um problema cada vez maior, especialistas defendem políticas mais abrangentes. A Organização Internacional do Trabalho e autores como Gray e Suri sugerem regras e benefícios universais, como serviços de saúde totalmente públicos e padrões mínimos de remuneração e segurança, visando proteger esses trabalhadores.
Lena Simet, da ONG Human Rights Watch, que desde 2014 tem escritórios em São Paulo, é incisiva: “Se esse modelo só sobrevive explorando trabalhadores, talvez não devesse existir”.
A inteligência artificial não é, por si só, vilã. O desafio está em garantir que o avanço tecnológico não destrua o que levou séculos para ser conquistado: dignidade e segurança no trabalho.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e membro da Congregação da Faculdade de Medicina de Jundiaí – [email protected].
O que é a Uberização e como mudou o mercado de trabalho? – Jornal Empresas & Negócios



