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Governo japonês usa IA para incentivar casamentos

em Tecnologia
quinta-feira, 30 de julho de 2026

O lançamento, em setembro de 2024, do Tokyo Enmusubi, aplicativo estatal de relacionamentos suportado por inteligência artificial, é mais do que uma curiosidade tecnológica. É um sintoma da urgência com que o Japão tenta enfrentar sua crise demográfica, com o governo assumindo o papel de “cupido oficial”, algo que revela tanto a gravidade da situação quanto os limites das soluções disponíveis.

Vivaldo José Breternitz (*)

Os números falam por si: em 2025, nasceram naquele país 671 mil crianças, enquanto 1,6 milhão de pessoas morreram. A taxa de fertilidade caiu para 1,1 filhos por mulher, muito abaixo do nível necessário para manter a população estável, que é 2,1. Diante desse cenário, o Estado não apenas incentiva casamentos, mas cria ferramentas para que eles aconteçam.

É oportuno lembrar que no Brasil a taxa de fertilidade está em 1,6, confirmando a tendência de queda e envelhecimento da população brasileira.

Mas há uma questão cultural e ética que não pode ser ignorada. Ao transformar as ligações amorosas em política pública, o governo invade um espaço que sempre foi privado, íntimo, marcado por escolhas pessoais. O risco é que o casamento deixe de ser visto como decisão individual e passe a ser tratado como instrumento de política demográfica.

É verdade que o Tokyo Enmusubi já mostra resultados: 36 mil pessoas se inscreveram, das quais 16 mil foram aceitas como usuárias do aplicativo após passarem por uma entrevista. Até meados de julho, 760 casais que se conheceram pelo aplicativo estavam em “relacionamentos sérios”, já tendo acontecido 265 casamentos.

Há histórias que dão um rosto humano à iniciativa, como a de “Turtle”, que encontrou marido aos 40 anos, ou de “Skytree”, que disse que o sistema de pontuação de compatibilidade foi decisivo para incentivá-lo a marcar encontros: “Mesmo que você esteja em dúvida, uma alta pontuação de compatibilidade dá a motivação necessária”.

O Tokyo Enmusubi é único porque simboliza um Estado que, diante da urgência demográfica, cruza fronteiras antes reservadas às pessoas. É uma medida pragmática, mas também um alerta: quando governos começam a intervir diretamente na esfera íntima, é sinal de que o problema deixou de ser apenas estatístico e passou a ser social.

No fim, o Tokyo Enmusubi pode até gerar casamentos e filhos. Mas a verdadeira questão é se conseguirá restaurar a confiança dos japoneses no futuro, algo que não se resolve apenas com algoritmos, mas com políticas que deem segurança econômica, social e emocional para que as pessoas queiram, de fato, formar famílias.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].