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Espelho no espaço pode transformar a noite em dia

em Tecnologia
quinta-feira, 16 de julho de 2026

Geoengenharia é uma intervenção intencional e planejada, com uso de tecnologia, nos sistemas naturais da Terra.

Vivaldo José Breternitz (*)

Há alguns dias, as autoridades deram sinal verde a um projeto de geoengenharia que pode transformar radicalmente nossa relação com a noite. A protagonista é a Reflect Orbital, startup californiana que recebeu autorização para colocar em órbita o Eärendil-1, primeiro satélite experimental projetado para refletir a luz solar para a Terra durante períodos de escuridão. À época da União Soviética, falava-se em fazer algo similar para iluminar a Sibéria no inverno, mas essa ideia nunca prosperou.

Batizado em homenagem a um personagem de J.R.R. Tolkien, o Eärendil-1, orbitando a 625 km de altitude, usará um espelho quadrado com cerca de 18 metros de lado para redirecionar raios solares a pontos específicos do planeta. O feixe projetado poderá iluminar áreas com cerca de 6 quilômetros de diâmetro, em um modelo de negócio descrito pela empresa como “luz solar sob demanda”.

O lançamento está previsto para o próximo semestre e servirá como teste para avaliar a viabilidade técnica antes de colocar em órbita uma constelação de espelhos.

A Reflect Orbital aposta em usos práticos: iluminar zonas de desastre para facilitar o trabalho de socorristas, acelerar obras de infraestrutura sem depender de iluminação artificial ou até prolongar a atividade de parques de geração de energia solar após o pôr do sol.

A comunidade científica vê riscos sérios na ideia. A American Astronomical Society e o European Southern Observatory classificam o projeto como uma ameaça para a astronomia, alertando que a claridade artificial pode inviabilizar observações de outras galáxias. Ambientalistas também denunciam impactos potenciais nos ecossistemas: aves, insetos e animais noturnos podem ser desorientados pela alteração dos ciclos naturais de luz e escuridão.
Mas a Reflect Orbital promete dialogar com cientistas e estabelecer “zonas de exclusão” para mitigar os efeitos do Eärendil-1. O plano da empresa é ambicioso: lançar dois satélites ainda este ano e chegar a 36 unidades em 2027.

Se o projeto prosperar, o céu noturno poderá ganhar novos “mini sóis” artificiais, e com eles, uma intensa disputa entre inovação tecnológica, ciência e meio ambiente.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].

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