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Dois anos após a proibição de celulares nas escolas australianas, o que mudou?

em Tecnologia
terça-feira, 14 de outubro de 2025

Em 2020 o estado australiano de Victoria passou a proibir que estudantes usassem celulares nas escolas dos níveis primário e secundário; até 2024, os demais estados adotaram a mesma medida.

Vivaldo J. Breternitz (*) e Elisabete P. Breternitz (**)

As regras determinam que os aparelhos sejam guardados em bolsas, armários ou recolhidos pela escola, com seu uso proibido até o final das aulas do dia.

Os educadores julgam a medida um sucesso; como disse o diretor Caleb Peterson, do Australian Christian College, em Melbourne, o impacto foi imediato: “com o celular por perto, a mente do aluno nunca está totalmente presente. Queríamos a atenção deles de volta.” Desde o banimento, ele relata aulas mais fluídas, menos interrupções e um clima mais saudável na escola.

Pesquisas confirmam essa percepção: um levantamento do Departamento de Educação de Nova Gales do Sul, que ouviu quase mil diretores, mostrou que 95% continuam a apoiar a proibição. A maioria disse ter observado melhorias na aprendizagem, na socialização e na concentração dos alunos.

Em estudo semelhante, 70% dos professores do estado da Austrália do Sul relataram aumento no foco, apesar da perda do potencial educacional dos aparelhos – os celulares podem ser ferramentas poderosas para pesquisa e criação, e sua ausência torna o processo educativo mais dependente de recursos tradicionais.

Entre os estudantes, as reações são mais variadas. Alguns consideram a medida “um exagero”, especialmente por gerar mais ansiedade e tensão, pois consideram o celular uma ferramenta de segurança. Outros, porém, apontam ganhos sociais, dizendo que sem celular diminuíram a “cola” e os casos de fotos e vídeos compartilhados sem consentimento – bullying.

Para alguns educadores, como o professor Neil Selwyn, da Universidade Monash, do estado de Victoria, as proibições são populares, mas carecem de comprovação científica robusta. Ele lembra que “é ilusório acreditar que proibir celulares nas escolas, por si só, vá resolver os problemas do uso excessivo de tecnologia”, pois os estudantes passam muito tempo fora do ambiente escolar; diz também que o debate acerca do assunto deveria incluir também as famílias.

Outras pesquisas reforçam essa cautela: um estudo recente feito no Reino Unido, com 1.200 alunos, não encontrou diferenças significativas em bem-estar, desempenho acadêmico e comportamento entre alunos de escolas com e sem restrições.

Particularmente, acreditamos que essas medidas são positivas, trazendo ganhos reais, embora modestos. A proibição cria condições para que o aprendizado e as amizades prosperem – não é uma solução milagrosa, mas seria um passo importante na solução dos enormes problemas que afetam a educação no Brasil.

(*) Doutor em Ciências pela USP, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – FBIoT – [email protected]

(**) Especialista em Língua Inglesa pela UNESP, é professora e membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí – AFLAJ – [email protected]