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Casas inteligentes mal chegaram e parece que já estão saindo da moda

em Tecnologia
terça-feira, 04 de novembro de 2025

Durante anos, empresas de tecnologia e corretores de imóveis venderam a promessa da casa inteligente totalmente automatizada, um espaço em que luzes, câmeras e sistemas de climatização ativados por voz funcionariam em perfeita harmonia.

Vivaldo José Breternitz (*)

Mas, neste momento, um número crescente de proprietários parece estar seguindo na direção oposta. As mesmas tecnologias que antes simbolizavam conveniência e controle agora estão sendo reavaliadas, à medida que muitos repensam que tipo de lar realmente desejam.

Custos crescentes, preocupações com privacidade e fadiga digital estão impulsionando um movimento inesperado, o das “casas burras” (dumb homes), em que a simplicidade se torna o grande atrativo.

Muitas pessoas hoje veem a presença constante de tecnologia em suas casas como algo mais estressante do que reconfortante. Muitos estão trocando “configurações no estilo NASA” por interruptores manuais, botões e controles mecânicos – a tendência reflete uma mentalidade de “bem-estar analógico”, voltada à criação de ambientes mais calmos e menos conectados; nota-se tendência similar nos novos painéis de veículos.

O aspecto financeiro também começa a ser considerado. A tecnologia doméstica inteligente movimenta cerca de US$ 100 bilhões por ano, mas o custo para os consumidores tende a ser alto. Atualizações frequentes de software, incompatibilidades entre dispositivos e ciclos curtos de substituição tornam os sistemas caros.

Dados da Zillow, uma das maiores plataformas imobiliárias dos Estados Unidos, reforçam a mudança nas preferências dos compradores. O Home Trends Report 2026 da empresa mostrou que as menções a “cantinhos de leitura” em anúncios imobiliários aumentaram 48% em relação ao ano anterior. Segundo a Zillow, esse crescimento indica que as pessoas estão buscando espaços de “relaxamento desconectado”, onde telas e automação tenham papel mínimo.

A Dwell, uma revista norte-americana especializada em arquitetura, design e estilo de vida, também apontou o declínio das casas inteligentes como uma das principais tendências de design nos próximos anos, citando o interesse crescente por interiores táteis e livres de tecnologia.

Essa mudança de postura vai além da arquitetura: o uso de telefones fixos registrou um leve crescimento, segundo o Washington Post, especialmente entre pais que desejam limitar o tempo de tela dos filhos. Até mesmo alguns integrantes da Geração Z, que cresceram com smartphones, estão adotando aparelhos retrô, movimento que o New York Post descreve como uma escolha estética e uma forma de fuga do digital.

A mudança em direção a um estilo de vida menos tecnológico, porém, não é universal. Corretores afirmam que recursos de automação continuam agregando valor a imóveis em regiões em que se concentram empresas de alta tecnologia, pois pessoas ligadas a essas empresas costumam esperar sistemas avançados integrados ao dia a dia.

De qualquer forma, o crescimento explosivo que se esperava na área de casas inteligentes não deve se concretizar.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].