
Rest of World é uma organização jornalística internacional sem fins lucrativos, dedicada a cobrir como tecnologia, cultura e sociedade se entrelaçam fora dos grandes centros ocidentais.
Vivaldo José Breternitz (*)
Recentemente mostrou o caso de um menino chinês, que aos 13 anos já venceu competições nacionais de inteligência artificial, tem mais de 136 mil seguidores online e acaba de ser contratado por uma empresa da área de IA.
O fato ilustra bem para onde a indústria de tecnologia chinesa está caminhando. Antes, as empresas esperavam os recém-formados baterem à porta. Agora, buscam cada vez mais cedo: primeiro entre universitários e, cada vez mais, entre adolescentes, na tentativa de identificar talentos raros antes da concorrência.
O motivo é simples: há uma falta séria de mão de obra naquele país. A consultoria McKinsey estima que a China pode ter um déficit de 5 milhões de profissionais de IA até 2030; hoje já há mais vagas abertas do que pessoas qualificadas para as preencher, gerando situações como a da Tencent, um dos maiores conglomerados de tecnologia da China, que lançou campos de treinamento para jovens de 13 a 18 anos, abordando desde gestão de produtos de IA até computação quântica.
A montadora Geely também inverteu a lógica tradicional: recruta alunos do ensino médio, treina-os em IA e tecnologia de veículos elétricos durante os estudos e garante a eles emprego com salário equivalente ao de um recém-formado em um curso superior.
Já a MiniMax, uma das principais startups de IA do país, afirma que ainda não contrata secundaristas, mas deixou de exigir diploma universitário; para a empresa, curiosidade e capacidade bruta contam mais do que títulos acadêmicos.
Essas mudanças não é exclusivas da China. Sergey Brin, cofundador do Google, já declarou que a empresa está cada vez mais aberta a contratar pessoas sem curso superior. No fim das contas, a inteligência artificial não está apenas transformando os empregos, está redefinindo quem pode ser considerado para eles. Idade, currículo tradicional e diplomas começam a pesar menos diante da habilidade e da curiosidade.
O discurso celebra inovação e competitividade, porém, pouco se fala sobre os impactos psicológicos de transformar adolescentes em profissionais tão cedo. Se a promessa de emprego garantido soa tentadora, também pode aprisionar jovens em trajetórias que eles não escolheram livremente.
No entanto vale lembrar que aqui no Brasil boa parte dos “baby boomers”, aqueles nascidos entre 1946 e 1964, ingressaram no mercado de trabalho muito cedo – era possível trabalhar legalmente a partir dos 12 anos. Isso não é mais permitido, porém nossa sociedade não dá à maioria desses jovens a oportunidade de se prepararem adequadamente para o ingresso no mercado de trabalho, relegando-os ao trabalho informal ou, pior, ao ócio e a toda espécie de desvios.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].


