
Até há pouco tempo, os processos de automação e robotização desempregavam principalmente pessoas que atuavam em chão de fábrica, armazéns e similares.
Vivaldo José Breternitz (*)
Mas agora, com o crescimento explosivo da inteligência artificial (IA), a situação vem mudando rapidamente: os chamados “trabalhadores do conhecimento” ou “de colarinho branco” vem enfrentando uma onda de demissões em todos os níveis, desde cargos iniciais até nos de nível gerencial.
Grandes empresas, de perfil inovador, vêm demitindo, como a Microsoft que dispensou engenheiros de software, a Duolingo, redatores bilíngues, e o Walmart que fez cortes em sua equipe de tecnologia da informação.
Mas há muitos cortes que não viram notícia, principalmente por acontecerem em empresas de menor porte, e o pior é que essas demissões não geram vagas porque as funções simplesmente deixaram de existir.
Por essa razão, uma espécie de medo difuso começa a se espalhar. Empregos de colarinho branco que até muito recentemente garantiam uma vida confortável de classe média — e até classe média alta — estão desaparecendo discretamente: redatores, publicitários, especialistas em comunicação, designers de sites e desenvolvedores de software estão entre as vítimas. Até mesmo profissionais de alto escalão, os chamados “C-levels”, já temem perder seus postos para a inteligência artificial.
Diferentemente de outras ondas de automação, essas mudanças estão ocorrendo em áreas onde contam, ou contavam, o cérebro, o diploma e a habilidade de navegar pelas estruturas organizacionais, e é por isso que o impacto parece tão diferente. Sekoul Krastev, cientista comportamental e diretor da empresa internacional de consultoria The Decision Lab, afirma que as perdas de emprego ligadas à IA causam uma inquietação muito mais profunda.
“Você se sente praticamente obsoleto — como se estivesse sendo substituído por algo melhor do que você, de uma forma que jamais poderá alcançar”, afirma Krastev. A velocidade com que a onda da IA varre o mundo corporativo torna essa transformação ainda mais desconcertante. “É muito mais difícil competir com algo que evolui tão rapidamente que você não consegue prever”, explica. “Você está sendo comparado com algo que nem é humano.”
Segundo Krastev, quando uma pessoa é substituída por outra pessoa, ela pode até sentir que a empresa não precisa dela ou que foi injustiçada. Mas, ao ser substituída por uma IA, a sensação é de um descarte mais profundo — algo que transcende o âmbito pessoal e atinge algo maior, quase existencial.
Há um problema adicional: as empresas estão redirecionando investimentos em projetos existentes para iniciativas que envolvem IA, o que pode atingir até os melhores profissionais, que agora procuram se recolocar em um mercado que vem se estreitando em termos de número de oportunidades e de salários.
E o que fazer? A recomendação é se engajar com a IA e buscar o aperfeiçoamento profissional – educação continuada talvez ajude.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor e consultor – [email protected].


