Quando o dono não larga o bastão

Thomas Lanz (*)

Quantas vezes não escutamos o famoso ditado, quando nos referimos a donos e fundadores de empresas:  “os criadores são capazes de destruir a sua própria criação”.

Infelizmente isto é uma realidade. Diversas situações podem levar ao encolhimento e até ao fechamento dos negócios e talvez cada um dos leitores interessados no assunto não terá dificuldade em encontrar exemplos de pessoas ou empresas próximas. Não podemos deixar de mencionar grandes corporações como a Sony, Polaroid ou a Kodak que passaram por um destino semelhante.

Não conseguiram detectar as consequências do que estava acontecendo ao redor. A indústria relojoeira suíça ia seguindo o mesmo trajeto com o aparecimento dos relógios digitais produzidos no Japão, sabendo se reinventar no último instante com o lançamento do relógio Swatch.

Mas vamos voltar ao fundador da empresa. Ao iniciar o seu negócio ele tinha uma ideia genial e inovadora. Esta lhe deu fôlego para crescer e se desenvolver durante vários anos. Só que o mercado foi evoluindo e produtos concorrentes e talvez mais competitivos foram aparecendo. Nosso pioneiro, tão aferrado ao seu negócio e ao seu produto não olhava mais para os lados. Aos poucos e gradativamente seu negócio foi minguando até que um dia teve que fechar o seu negócio por falta de pedidos. Já era tarde para inovar ou lançar novos produtos.

O mesmo se passa com tecnologia. É comum visitar empresas que produzem seus produtos com qualidade e esmero. Mas, mais uma vez, o empresário de tão confiante que está com sua atuação deixa de lado a ideia de inovar tecnologicamente o seu negócio. De uma hora para outra, a empresa concorrente estará produzindo num parque fabril moderno utilizando o que existe de mais novo em emprego de tecnologia e processos. Mais uma vez nosso empresário ficou para trás e teve que fechar as portas de seu negócio por perda de competitividade.

Por fim podemos citar um outro perfil de “ dono “ de empresa. É aquele que não quer largar o bastão. Ele não consegue, apesar de às vezes querer , enxergar o seu negócio sendo comandado por outra pessoa, mesmo sendo uma filha ou filho. Assim, uma vez na sua falta ou sendo acometido por uma doença que o afasta definitivamente dos negócios, um grande vazio sucessório surge na organização. A empresa como um todo não foi estruturada para ser dirigida por outra pessoa. Os filhos não foram preparados para um dia comandar os negócios da família.

Em âmbito da própria família o assunto não foi devidamente discutido. Se algo acontece repentinamente para o dono da empresa e pai de família o caos e conflitos se instalam rapidamente. Como consequência a empresa decai rapidamente, encerra suas atividades ou precisa ser vendida. Daí a importância do dirigente de uma empresa familiar, sempre considerar em seu planejamento estratégico a questão da sucessão da gestão e paralelamente montar um plano de transição. Este plano é de longa duração. É o plano da passagem do bastão!

O líder precisa pensar e atuar desde a formação acadêmica de seus filhos, a discussão dos planos de carreira de seus herdeiros, a estruturação societária dos negócios, a montagem de uma boa governança corporativa com a formação de Conselhos de Família ou Consultivos, a elaboração de protocolos familiares e elaboração de bons acordos societários. Somente desta forma a passagem do bastão poderá ser realizada harmonicamente e sem grandes percalços visando preservar os negócios da família.

Como donos de empresas nunca devemos pensar em nossa sucessão e sim na transição de nossa gestão, passando o bastão para mãos mais preparadas para o futuro.

(*) – É fundador da Thomas Lanz Consultores Associados, empresa especializada em governança corporativa, gestão de empresas médias e grandes no Brasil.

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