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Fintechs na América Latina: a sustentabilidade na era pós-disrupção 

em Opinião
sexta-feira, 07 de agosto de 2026

Roger Darashah (*)

O mercado de fintechs na América Latina entrou em uma nova fase.

Depois de anos marcados pela corrida para desafiar os bancos tradicionais e ampliar o acesso aos serviços financeiros, o setor agora enfrenta um teste mais complexo: provar que consegue crescer de forma sustentável.

O fim do ciclo de capital abundante, que impulsionou o ecossistema até 2021, mudou as prioridades dos investidores. Em vez de premiar apenas o crescimento acelerado da base de clientes, o mercado passou a exigir rentabilidade, eficiência operacional e modelos de negócio sustentáveis. Não por acaso, o mercado passou a falar nas chamadas “Séries P”, em referência à lucratividade (profitability) como o novo diferencial competitivo das startups. Esse movimento também se refletiu na América Latina, onde o volume de capital permaneceu abaixo dos picos de 2021, mas passou a se concentrar em empresas com fundamentos financeiros mais sólidos e capacidade comprovada de geração de caixa.

Essa mudança também transformou a relação entre fintechs e consumidores. Em um estudo desenvolvido pela LatAm Intersect, identificamos um movimento que chamamos de Trust as a Service (TaaS): a confiança deixa de ser consequência da experiência do cliente e passa a ser um diferencial competitivo. O usuário latino-americano já não procura apenas uma conta digital ou um cartão. Ele espera que a instituição atue como um copiloto financeiro, oferecendo orientação personalizada com apoio de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, existe um limite claro para essa transformação. Embora 62% dos consumidores aceitem utilizar assistentes financeiros baseados em IA, 85% ainda preferem recorrer a uma pessoa em situações críticas, como fraudes ou disputas. A tecnologia amplia a eficiência, mas a confiança continua sendo construída por transparência, segurança e atendimento humano quando realmente importa.

Esse desafio se torna ainda maior diante do crescimento dos golpes digitais. A América Latina registra índices de ataques de phishing com inteligência artificial que ocorrem  40% mais do que a média global, tornando a segurança cibernética parte essencial da proposta de valor das instituições financeiras. Não basta oferecer inovação; é preciso comunicar com clareza como ela protege o cliente.

A própria inovação também mudou de significado. Hoje, inovar significa resolver problemas concretos da vida financeira das pessoas. O avanço das stablecoins ilustra bem esse movimento. Criadas inicialmente dentro do universo cripto, elas passaram a desempenhar um papel prático em economias marcadas por inflação elevada e restrições cambiais, facilitando remessas internacionais e preservação de valor. Na Argentina, por exemplo, já representam mais de 60% das transações com criptomoedas. A adoção não foi impulsionada pelo marketing, mas pela utilidade.

Essa lógica aparece em diferentes mercados latino-americanos. No México, cresce a demanda por recomendações financeiras personalizadas e por soluções voltadas ao mercado B2B. No Brasil, onde o consumidor mantém relacionamento com diversos bancos ao mesmo tempo, aumenta a expectativa por orientação financeira proativa e experiências integradas. Já países como Chile, Peru e Colômbia revelam que o desafio da inclusão financeira deixou de ser apenas abrir contas: agora é oferecer produtos relevantes, ampliar o acesso a investimentos e construir relações duradouras de confiança.

Segundo o relatório Global Findex 2025, do Banco Mundial, 70% dos adultos da América Latina e do Caribe já possuem uma conta em uma instituição financeira ou serviço de dinheiro móvel, um avanço significativo em relação aos 54% registrados em 2017. Com o acesso ao sistema financeiro cada vez mais consolidado, o principal desafio da próxima década deixa de ser apenas incluir mais pessoas e passa a ser construir instituições capazes de permanecer relevantes, rentáveis e confiáveis em um mercado cada vez mais digital.

A era da disrupção foi marcada pela competição para conquistar usuários. A era que começa agora será vencida por quem conseguir mantê-los. Em um mercado cada vez mais competitivo, produtos podem ser copiados rapidamente. Confiança, reputação e capacidade de resolver problemas reais, não. São esses ativos que definirão as fintechs que liderarão o próximo ciclo de crescimento da América Latina.

(*) Sócio e cofundador da LatAm Intersect.