Erupção ou disrupção?

Heródoto Barbeiro (*)

Os engenheiros da maior fábrica de motores à vapor da Inglaterra estavam apavorados.

Noticias vindas do continente davam conta que empresas alemãs e francesas iriam por no mercado motores de combustão interna, mais baratos, e eficientes do que as conhecidas marias fumaças. Uns olhavam com descrença a situação, uma vez que não se desmonta uma indústria da proporção do vapor de uma hora para outra. Ela tinha acabado com a indústria de carruagens, coches, arreios, ferraduras, criadores de cavalos, hospedarias na beira das estradas.

Outros enxergavam e divulgavam que a era do vapor no transporte estava no fim. Barcos, navios, trens, grandes fábricas e até automóveis seriam movidos por um motor pequeno que consumia petróleo ou energia elétrica. O mundo conhecia uma ação disruptiva. Assim como o advento na indústria automobilística dos veículos autônomos. De novo o episódio se repete. Uns não admitindo do fim do gigantesco setor. Outros anunciam uma nova etapa disruptiva.

O fato é que a energia elétrica se tornará cada vez mais barata e limpa e virá de uma fonte governada pelo deus Hélio. Os primeiros a cair são as mineradoras de carvão, a mesma que alimentou a máquina á vapor, depois o petróleo. Em breve o transporte individual vai se tornar o inimigo público número um. Isso vai acelerar a demolição da poderosa indústria automobilística, sonho de consumo de boa parte da humanidade. Os ricos com os carrões poderosos, os pobres com o que sobra nas revendedoras de usados e com preços sucateados.

 A maioria das empresas fabricantes vão falir, como faliu a Kodak, detentora da venda de 85% de todo papel fotográfico vendido no mundo, com 170.000 empregados. Ela foi corroída pelas câmeras digitais que começaram fraquinhas, mas em pouco anos fez com que uma nova geração nunca tivesse ouvido falar em filme fotográfico. Nem em laboratório de revelação, com câmera escura e tudo o mais. Uma foto ficava pronta em poucos dias e no auge dessa tecnologia, em 24 horas.

De repente é possível tirar uma foto no celular e ver imediatamente se saiu bem na… foto. É uma mudança tão grande como o advento do carros dirigidos automaticamente, mais seguros, eficientes, e que vai aposentar a velha e boa carteira de motorista. Assim como o Huber e o AirBNB poucos vão comprar um carro, ele vai ser alugado pelas empresas fabricantes que sobreviverem. Vem ai o computador sobre rodas.

Não são apenas os engenheiros que estão assustados. Advogados, jornalistas, enfermeiras, seguranças e outras profissões também vão ser atropeladas pelas empresas disruptivas. É verdade que elas sempre existiram no bojo da revolução industrial, mas não com a velocidade com que se impõem agora. Em menos de 15 anos os computadores vão se tornar mais inteligentes que as pessoas. Assim um deles pode dar conselhos no lugar de um advogado com exatidão de 90%.

Outra máquina, com um chapeuzinho branco e uma cruz vermelha, pode diagnosticar câncer com quatro vezes mais eficiência do que quando diagnosticado por um humano. As identificações nos bancos, portarias de prédios, aeroportos, aviões, condomínios já são feitas por softwares cada vez mais precisos, baratos e incorrutíveis. Redatores de texto são capazes de produzir uma notícia com início, meio e fim e vão contribuir para a implosão de outra industria: a da mídia. E os empregos?
Está é a pergunta que acompanha as mudanças desde que uma fábrica manual de tecidos inglesa, no século 18, introduziu o primeiro tear automático.

(*) – É âncora e apresentador do Jornal da Record News e editor do blog no R7 (herodoto@r7.com)

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