Desafios sociais da covid-19: o êxodo urbano e o e-commerce

Virgínia Bastos Carneiro (*)

Duas questões de fundo histórico-social nos provocam a todo instante: como historiadores irão definir o ano de 2020 no aspecto social?

E como será descrita a linha do tempo desta sociedade com bases na disseminação da covid-19? É difícil não pensar nestas questões quando o mundo mudou pela pandemia, quando todos os continentes foram atingidos e nos pusemos a acompanhar, a refletir e a gerar comportamentos inéditos impostos pelo novo vírus.

Afinal, o mundo parou e o início do segundo decênio do século XXI ficará assim marcado.

Não é possível saber como a história de hoje será contada nos livros de amanhã, entretanto, mais instigante que tentar adivinhar o que irão escrever, é viver em tempo real as mudanças sociais singulares causadas pela pandemia. Neste aspecto, já disse o historiador Laurent-Henri Vignaud, da Universidade de Borgonha, que “uma epidemia sempre é um momento de teste para uma sociedade e uma época”.
Podemos concordar com o historiador – e ainda acrescentar – que além de um momento de teste, a pandemia também acarreta importantes mudanças sociais.

Assim como as grandes epidemias no passado, o coronavírus tem deixado marcas por todo o planeta, com países em isolamento, fronteiras fechadas e uma economia fragilizada. Ao lembrarmos da gripe espanhola, em 1918, e da peste negra, no século XIV, causadoras de profundas transformações sociais na época, teremos poucos elementos em comum entre a Europa do final da Idade Média ou então da Primeira Guerra Mundial com a nossa sociedade atual, globalizada e super conectada.

Analisemos dois cenários sociais distintos causados – e incrementados – pela pandemia da covid-19. O primeiro deles é a observação de um êxodo urbano, de características centradas na busca por melhor qualidade de vida; e o segundo aspecto define a aceleração do e-commerce, em constante incremento como opção pessoal – e até como sobrevivência dos usuários em reclusão – para abastecimento de bens de consumo.

Já não é de hoje que a turbulência das grandes cidades causa problemas significativos de ansiedade e estresse. Seja pelo efeito nocivo de horas e horas no rush do trânsito de início e fim de expediente, seja pela aglomeração em espaços de compras, falta de tempo para atividades recreativas ou insegurança.

Um número significativo de famílias impactadas pelo estresse – que aumenta concomitantemente com o número de casos da doença – contribui para um aumento à procura de moradas maiores e com área verde, longe dos grandes centros, em cidades de porte médio ou mesmo pequenas e até em zonas rurais. Assim se verifica em alguns países como Estados Unidos, França e Canadá, dentre outros.

Em Nova York, uma das cidades mais atingidas pelo novo coronavírus, observa-se uma tendência de êxodo urbano determinando uma demanda por cidades mais baratas, menores e mais seguras, uma vez que o vírus torna os grandes centros urbanos bem mais vulneráveis pela maior densidade populacional. Em Montreal e Toronto, cidades atingidas duramente pela crise sanitária e – onde o dia a dia é rápido e envolvente – as inseguranças e restrições tornaram a vida insuportável para alguns moradores.

A possibilidade do teletrabalho impulsionou e incentivou muitos deles a trocar a vida turbulenta das grandes metrópoles pela tranquilidade do campo. Em relação ao e-commerce, cujo avanço já vinha em crescente escalada sem o fator covid-19, a partir dos primeiros meses de pandemia disparou de forma exponencial em funçao das quarentenas, isolamentos sociais e até mesmo pela falta de estoque de certos itens em pontos de vendas habituais.

No Brasil, de acordo com estudos realizados pela CRITEO, “comprar mercadorias online, pedir comidas por serviços de delivery e realizar compras através de aplicativos para smartphones estão entre os principais comportamentos adotados por brasileiros durante a pandemia do coronavírus”. Também foi constatado um bom aumento nas compras online durante a recente Black Friday 2020, com um percentual 31% maior do que no mesmo período do ano passado, segundo dados da Neotrust/Compre&Confie.

É a confirmação de que o e-commerce se estabelece como um novo “normal” social (e econômico), um modo de consumir muito apreciado pelos consumidores, notadamente pela facilidade da utilização, rapidez e eficácia, delineando vantagens inegáveis. Tecnologias de ponta inovam e propõem sites cada vez mais performáticos e intuitivos utilizando-se de sistemas logísticos seguros e serviço clientela impecável, ambos com o intuito de fidelizar a clientela e recrutar novos clientes.

Enfim, só nos resta saber se tanto o fenômeno do e-commerce quanto o do êxodo urbano são transições efêmeras, de dimensões transitórias enquanto a pandemia vigorar, ou se irão se prolongar e fortalecer para além dela, quando houver um decréscimo significativo de casos, e consequente afrouxamento no isolamento.

Isso, só a História nos dirá.

(*) – Formada em Pedagogia e História, é professora de Francês e revisora da Escola de Gestão e Negócios do Centro Universitário Internacional Uninter.

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