Confiança

Mario Enzio (*)

Conhece essa frase, que ilustra um sentimento que alguns podem estar vivendo: “confiança é igual papel – uma vez amassado -, nunca mais volta a ser como antes”?

Aprecio exemplos dessas situações: como clientes de uma determinada marca, quando têm confiança seguem consumindo. Quando vamos ao médico acreditamos que ele poderá estar bem preparado e fará o seu melhor. Quando descemos as escadarias de um prédio esperamos que não estejam molhadas para não escorregarmos.

Ou quando descemos num elevador antigo, pensamos que o serviço de manutenção esteja em dia. Vivemos em clima de acreditar e aceitar que de alguma maneira o outro fez a sua parte. A confiança pode nos dar segurança. O verdadeiro amor se resume em confiança e amizade, diz o poeta. Quando alguém é traído, o que ocorre? Perde-se a confiança.

Quando não acreditamos, colocamos travas nas relações. Ao contrário disso: se temos certeza de que está tudo bem, vamos em frente. Confiamos e pronto. Como uma história que li: – uma pessoa confiou num grupo de investidores que iria aplicar seu dinheiro em um banco. Esse grupo não aplicou. Sumiu com o dinheiro e a conta. Você perderia a confiança, não?

Como em questões sociais: você espera o combinado da reunião de condomínio. Mas, por decisão do Conselho – pessoas que não gostam de você – desautorizam a construção da proteção na piscina. O perigo continuará. Crianças poderão se afogar ou será criadouro de mosquitos. Por quê? Não dá para confiar em que não está alinhado com seus ideais.

Confiança é uma virtude que se bem aplicada todos poderiam obter sempre o melhor. Pessoas teriam mais respeito, seriam gentis, solidárias e fraternas. Mas, essas virtudes que se interligam fazem desse cenário uma fantasia. Uma ilha da fantasia: onde todos viveriam acreditando que tudo que se fala é para se confiar.

Seria uma ilha onde não haveriam contatos escritos, outro exemplo. Nem Constituições. Os acordos poderiam ser feitos na palavra e no aperto de mãos. O tradicional ‘fio do bigode’. Expressão relativamente antiga, como a confiança. Não necessitaria de firma reconhecida, testemunhas, advogados, registro de contrato. Um aperto de mãos selaria o negócio. Pela honra tudo valeria. Por um nome a zelar. Mas, isso não existe.

A sombra de se perder a confiança é sempre retratada com uma cara de surpresa. Um jeito simbólico de demonstrar essa hora do espanto vem descrito nos livros de história há pelos menos dois anos. É uma frase da Idade Antiga. Conta-se que no século I A.C., o imperador romano Júlio César foi vítima de uma conspiração de senadores para tirá-lo do cargo. Entre eles estava o seu filho adotivo Marcus Brutus.

O complô resultou no assassinato do imperador a punhaladas pelo grupo de senadores. Na hora da morte, Júlio César reconheceu o filho entre os seus algozes e proferiu a frase. “Até tu, Brutus, filho meu?”.
Perdoar? Talvez. Mas, não dá para esquecer ou restabelecer a confiança quando se é traído. Quem sabe com novas pessoas que conheçam história.

(*) – Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap