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A maioria dos restaurantes ainda não ganha dinheiro com inteligência artificial

em Negócios
quinta-feira, 23 de julho de 2026

Enquanto empresas investem em chatbots e atendimento automatizado, especialistas afirmam que o maior retorno da inteligência artificial está na gestão operacional, na análise de dados e na redução de desperdícios

Chatbots, assistentes virtuais e atendimento automatizado passaram a concentrar boa parte dos investimentos em inteligência artificial no setor de alimentação. A consultoria Gartner estima que, nos próximos anos, cerca de 80% das interações de atendimento ao cliente poderão ser conduzidas por tecnologias automatizadas, consolidando a IA conversacional como uma das principais frentes de transformação na relação entre empresas e consumidores. Apesar desse avanço, o maior potencial de retorno financeiro continua longe do atendimento e passa pela gestão, pela análise de dados, pela previsão de demanda e pela redução de desperdícios.

Para Rafael Franco, CEO da Alphacode, empresa especializada no desenvolvimento de aplicativos para food service, fintechs e soluções para o mercado financeiro, a discussão sobre inteligência artificial ainda está concentrada na parte mais visível da tecnologia.

“Os chatbots chamam atenção porque são a interface com o consumidor, mas representam apenas uma pequena parcela do potencial da inteligência artificial. O verdadeiro ganho acontece quando ela passa a orientar decisões, reduzir desperdícios e aumentar a eficiência do negócio”, afirma.

Na avaliação do executivo, muitos estabelecimentos ainda utilizam a tecnologia apenas para agilizar o atendimento, deixando de explorar sua capacidade analítica nos bastidores do negócio. É justamente nesse ponto que estão as maiores oportunidades para elevar a produtividade, reduzir custos e preservar margem.

“Quando a IA começa a apoiar decisões, ela consegue antecipar demanda, identificar padrões de consumo, otimizar compras e tornar toda a gestão mais eficiente. É nesse momento que a tecnologia deixa de ser um diferencial e passa a gerar resultado financeiro”, acrescenta.

O chatbot virou protagonista, mas não é onde está o lucro
Os principais ganhos aparecem quando plataformas próprias, sistemas de gestão, PDV, logística e programas de fidelidade passam a compartilhar informações em tempo real. Em vez de apenas registrar dados, essas ferramentas começam a interpretar comportamentos, identificar tendências e recomendar ações capazes de tornar toda a operação mais eficiente.

Com esse nível de integração, é possível prever horários de maior movimento, ajustar o mix de produtos, calcular níveis ideais de estoque, reduzir desperdícios, automatizar campanhas e personalizar ofertas de acordo com o perfil de consumo de cada cliente.

“A empresa deixa de olhar apenas para o histórico de vendas e passa a trabalhar de forma preditiva. Isso permite agir antes que os problemas apareçam, aumentando produtividade e rentabilidade sem depender apenas do aumento das vendas”, explica o empresário.

Segundo Franco, os aplicativos próprios assumiram um papel estratégico nas redes de alimentação. Além de concentrarem pedidos, eles reúnem informações sobre comportamento do consumidor, recorrência de compra e programas de fidelidade, formando uma base valiosa para decisões mais rápidas e assertivas.

A inteligência artificial começa a gerar lucro quando entra na operação
Outro equívoco frequente, segundo o especialista, é tratar a inteligência artificial como uma solução isolada. O maior retorno aparece quando ela integra toda a jornada digital do cliente e conecta diferentes áreas da empresa.

Nesse modelo, o aplicativo deixa de ser apenas um canal de vendas e passa a reunir pagamentos via Pix, programas de fidelidade, soluções de crédito, serviços oferecidos por fintechs e outras funcionalidades financeiras integradas à infraestrutura regulada pelo Banco Central, incluindo modelos baseados em FIDC.

“O aplicativo evoluiu para uma plataforma de relacionamento e monetização. Quando conectamos dados de consumo, meios de pagamento e serviços financeiros, conseguimos criar experiências mais completas e ampliar o valor de cada cliente ao longo do tempo”, afirma.

Essa integração também reduz a dependência de marketplaces, fortalece os canais próprios e amplia as possibilidades de geração de receita, utilizando os dados produzidos pela própria operação como base para decisões mais inteligentes.

Aplicativos deixaram de vender e passaram a concentrar dados, pagamentos e serviços financeiros
Embora a inteligência artificial tenha se popularizado rapidamente, o executivo observa que muitas empresas ainda iniciam projetos sem estabelecer indicadores ligados à eficiência, redução de custos ou rentabilidade. Como consequência, investem em soluções que geram percepção de inovação, mas produzem pouco impacto nos resultados.

“Não basta implementar inteligência artificial porque ela virou tendência. Ela precisa resolver problemas concretos da empresa. Quando é direcionada para reduzir desperdícios, melhorar processos, aumentar a retenção de clientes e apoiar decisões estratégicas, os resultados aparecem de forma consistente”, afirma.

Para o CEO da Alphacode, a próxima fase da transformação digital no food service será definida pela capacidade das empresas de conectar inteligência artificial, aplicativos próprios, análise de dados, automação, Pix, crédito e soluções financeiras em uma estratégia única de crescimento.

“A tecnologia deixou de ser apenas um apoio operacional. Ela passou a influenciar diretamente a rentabilidade do negócio. As empresas que conseguirem transformar dados em decisões terão uma vantagem competitiva difícil de alcançar apenas com preço ou marketing”, conclui.