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A renda via celular é real, mas ainda é privilégio de poucos

em Mercado
terça-feira, 29 de julho de 2025

Paulo Silva (*)

O Brasil vive hoje um fenômeno inédito em que o celular, que por muito tempo foi símbolo de consumo e status social, transformou-se em uma ferramenta essencial de sobrevivência. Em um país com mais smartphones do que habitantes, são mais de 249 milhões de dispositivos ativos, segundo a pesquisa Panorama Mobile Time e Opinion Box, a geração de renda por meio do celular deixou de ser uma exceção para se consolidar como uma alternativa concreta. Para milhões de brasileiros, o aparelho na palma da mão representa muito mais do que um meio de comunicação. Ele se tornou a principal via para pagar contas, complementar a renda e, em inúmeros casos, iniciar um pequeno negócio ou manter um trabalho informal.

A força dessa tendência decorre da combinação de dois fatores que se intensificaram nos últimos anos. De um lado, a ampla popularização da tecnologia móvel, que ampliou o acesso à internet e às plataformas digitais. Do outro, um cenário econômico caracterizado pela instabilidade, pelo crescimento da informalidade e pela crescente urgência por autonomia financeira. Atualmente, mais de 60 milhões de brasileiros acessam a internet exclusivamente pelo celular, de acordo com dados da pesquisa TIC Domicílios 2023. Paralelamente, o número de microempreendedores individuais no país já ultrapassa 14 milhões, após registrar um crescimento superior a 33% em apenas quatro anos. Em muitos desses casos, o próprio celular passou a ser a principal, e às vezes única, ferramenta de trabalho.

No entanto, é fundamental reconhecer que esse movimento, embora representativo, está longe de ser plenamente democrático. A maior parte das pessoas que utilizam o celular como fonte de renda não o faz por vocação empreendedora, mas por falta de outras opções. Trata-se, majoritariamente, de jovens e adultos com escolaridade média, que recorrem a essas plataformas como uma forma de complementar o orçamento doméstico. Segundo o Ipea, mais de um milhão e meio de brasileiros atuam em aplicativos de transporte e delivery como principal fonte de renda. Embora esses modelos ofereçam certa flexibilidade, eles também estão marcados por incertezas, ausência de direitos trabalhistas e insegurança financeira.

Além dos desafios individuais, existem barreiras estruturais que limitam o verdadeiro potencial dessa nova economia digital. Uma pesquisa da Serasa Experian aponta que metade dos microempreendedores brasileiros nunca conseguiu acessar crédito bancário, o que compromete a sustentabilidade e o crescimento de seus negócios. Além disso, cerca de 22% da população não tem condições mínimas para trabalhar remotamente, seja por falta de equipamentos adequados ou de conexão à internet de qualidade. Para completar esse cenário desafiador, o número de pessoas que acumulam dois ou mais empregos para fechar o mês cresceu de 5% para 12% em apenas dois anos, segundo o Ipec.

O avanço da chamada renda digital representa um dos capítulos mais emblemáticos da transformação do trabalho no Brasil contemporâneo. No entanto, para que essa mudança se traduza em inclusão real, ela precisa vir acompanhada de políticas públicas e ações concretas. Investimentos em capacitação digital, ampliação do acesso a crédito, combate a fraudes e criação de mecanismos de proteção social para os trabalhadores conectados devem estar no centro da agenda. O celular pode, sim, ser uma porta de entrada para o empreendedorismo, mas não deve ser visto como solução automática ou suficiente para lidar com desigualdades históricas e estruturais.

A tecnologia possui um enorme potencial para criar oportunidades concretas e promover transformações significativas na vida das pessoas. O verdadeiro desafio reside em assegurar que essas oportunidades cheguem a todos os brasileiros, especialmente àqueles que ainda enfrentam barreiras para acessá-las, e não apenas àqueles que já dispõem dos recursos e conhecimentos necessários para aproveitá-las plenamente.

(*) CEO da Filtrify.