A economia colaborativa e a transformação dos mercados

Fábio Kielberman (*)

As mudanças registradas a partir da pandemia fortaleceram movimentos que já vinham ganhando espaço globalmente.

Como a digitalização e a criação de novos modelos de negócios, sobretudo aqueles baseados na chamada economia colaborativa, que caminha paralelamente ao avanço da tecnologia digital, e estão ancorados nela. Também chamada de economia compartilhada ou em rede, a economia colaborativa baseia-se na troca e compartilhamento de ativos, serviços e recursos, promovendo o acesso a eles por meio da tecnologia, e gerando prosperidade, inclusive por proporcionar economias significativas de custos.

Trata-se de uma grande mudança de paradigma e de cultura sobre a forma de fazer as coisas e realizar negócios. Segundo um estudo publicado pela consultoria PwC, a economia colaborativa já movimenta cerca US$ 15 bilhões ao ano, e a previsão é alcançar a cifra de US$ 335 bilhões até 2025. Empresas como o Airbnb e o Uber são os exemplos mais conhecidos e bem-sucedidos, mas o modelo de compartilhamento vem se disseminando pelas áreas mais diversas.

Presente nos espaços de coworking, nos aplicativos de roupas usadas ou de bicicletas, a economia colaborativa alcançou o mercado de leilões, um segmento que movimenta cerca de R$ 100 bilhões ao ano, com a venda de bens diversos, como veículos, imóveis, máquinas e equipamentos e até objetos de arte, e que migrou, de forma acelerada, para o formato online.

O conceito mesmo de leilão, como modelo que permite extrair um valor maior de ativos que, de outra forma, seriam negociados em condições de menor preço ou de menor demanda, tem relação com o da economia colaborativa, pois o princípio desta é facilitar a oferta de ativos entre duas ou mais partes. E sob esse aspecto, o leilão online vem se comprovando extremamente eficaz.

Uma grande mudança registrada neste segmento, contudo, não se refere apenas às negociações dos bens pela internet, mas sim à possibilidade de se contar com uma rede colaborativa de leiloeiros que atuam nos leilões, conforme já estamos proporcionando aos leiloeiros operarem no mercado brasileiro.

Nesta modalidade, o leiloeiro com espírito originador continua desempenhando um papel fundamental na captação dos bens e no bom atendimento ao dono do ativo ou do bem a ser vendido. Mas entra em cena o trabalho de outros leiloeiros, mais expertos na venda em si, e, em uma ação conjunta de oferecer esses bens a um número muito maior de potenciais interessados, e proporcionar um atendimento diferenciado aos compradores.

Ao trabalhar de forma coordenada, ampliam-se as chances de realização de negócios — pois cada um movimenta, respectivamente, a sua rede de clientes e de potenciais compradores –, e se potencializam os arremates por valores mais altos, à medida que mais interessados participam.

A premissa da operação em rede é a de que a não exclusividade do leilão aumenta as chances de o bem ser arrematado, por um valor mais alto e a um custo operacional menor. Em contrapartida, os leiloeiros envolvidos na transação compartilham dos ganhos auferidos em função do papel desempenhado, de originação de produtos ou venda. Os benefícios, portanto, de se utilizar um modelo colaborativo são inúmeros.

Contudo, da mesma forma como o pensamento que prioriza o lucro exclusivo, busca reduzir a concorrência e garantir que apenas um player terá o benefício de realizar um determinado negócio, ainda há muita resistência à mudança na forma de realizar os negócios para esse modelo compartilhado. Trata-se de uma questão cultural, e mudar a chave para uma nova cultura é um desafio, tanto no mercado de leilões quanto em outros segmentos.

Não tenho dúvidas de que essas mudanças seguirão acontecendo, e ganhando espaço, à medida que esses formatos comprovem seus resultados e seu impacto no crescimento não apenas de cada negócio individualmente, mas de toda a economia. Resta apenas o desafio de se difundir com paciência essa nova forma de pensar e de fazer as coisas, mais sustentável, mais próspera e colaborativa.

(*) – É CEO da Bomvalor S.A. (https://bomvalor.com.br/).

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