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Setor de Panificação cresce 10% e tem apetite para mais

em Manchete Principal
quarta-feira, 23 de julho de 2025

A FIPAN, maior feira da América Latina, espera 59 mil visitantes de 17 países

Redação

A indústria de panificação e confeitaria cresce a olhos vistos. Com faturamento de R$ 153 bilhões e projeção de expandir o caixa em 10% ao ano (previsão é entre 8% e 14% para 2026), o setor gera 1 milhão de empregos diretos e mais 2 milhões indiretos, sustentado por mais de 100 mil padarias no Brasil. Foi com estes números que começou a FIPAN 2025, na última terça-feira, em São Paulo, promovida pela Associação das Indústrias de Panificação e Confeitaria de São Paulo (Sampapão) e apoiada pela Associação Brasileira da Indústria de Panificação (ABIP) e pela União Internacional de Padeiros e Confeiteiros (UIBC, em inglês). Evento reuniu, em sua 30ª edição, 430 expositores e 1.500 marcas distribuídos em quatro pavilhões do EXPO Center Norte, em São Paulo.

Feito à base de farinha de trigo e água, o pão é considerado o alimento mais antigo do mundo. Pesquisadores dinamarqueses, por exemplo, descobriram em escavações na Jordânia uma mistura próxima ao que conhecemos hoje e, em seus cálculos, o pão existe há mais de 14 mil anos. Na Mesopotâmia também tinha pão e na Bíblia a simbologia do pão, que Cristo multiplicou, é muito forte. Com o tempo, as coisas vão mudando – inclusive o preparo de alimentos. Hoje o fermento é imprescindível (o que civilizações antigas não conheciam), assim como o tempo de preparo, as quantidades, as aplicações, os sabores e por aí segue. E é tudo isso e misturado que a FIPAN apresenta até a próxima sexta, 25, para a felicidade da mais sofisticada indústria ao iniciante empreendedor. São produtos e mais produtos incrementando os 120 tipos de pão que fazemos no Brasil, auxiliados por máquinas cada vez mais rápidas e certeiras e sistemas automatizados de estocagem, venda e distribuição.    

O Brasil terminou 2024 com 288,8 mil empresas do setor (considerando toda a cadeia de produção, como moinhos, embalagens, automação etc). Destas, 90 mil são padarias, faturando R$ 140 Bi e gerando 2,6 milhões de empregos (diretos e indiretos). Para 2025 os números atualizados são de 100 mil padarias – das singelas portinhas aos grandes salões, que diversificam a gastronomia –, faturando R$ 153 bilhões e gerando 3 milhões de empregos. O setor é tão influente que além das delegações de 17 países (entre os quais Chile, Uruguai, México, Alemanha, Portugal, França, Espanha, Romênia e Taiwan) e do presidente internacional dos padeiros e confeiteiros, Dominique Anract, reuniu o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes; o secretário estadual do Turismo, Roberto de Lucena; representante do Consulado Português em São Paulo e vários deputados no ato de abertura.

Durante o 5° Congresso Internacional de Panificação e Confeitaria, que precedeu a abertura da Feira, José Maria Vallado (UIBC), Paulo Menegueli (ABIP) e o anfitrião Rui Gonçalves (Sampapão) comentaram sobre as atividades realizadas nos últimos meses e expuseram os números do setor a um público profissional. Exemplo: A cidade de São Paulo tem sozinha pouco mais de 12% das padarias do Brasil (índice semelhante à sua participação no PIB nacional) e, no Estado, são 26,6 mil, seguida por Minas Gerais, com 13,4 mil estabelecimentos. Roraima, com 213 padarias, é o caçulinha neste ranking. Em 2024 o tíquete médio do setor cresceu 6,37% e a produção própria de produtos saltou para 69%. Considerados os primeiros cinco meses deste ano, o setor já garantiu faturamento de R$ 69,7 bilhões.

Para Rui Gonçalves – que brincou, afirmando ser ele, o pai e Cristiano Ronaldo as três pessoas mais importantes nascidas na Ilha da Madeira… – o setor precisa se reinventar para continuar crescendo e a realização deste evento, a exemplo das parceiras com Senai, Sebrae e países amigos apontam a direção.  

Ainda no Painel Transformação do Congresso, o marqueteiro João Branco falou sobre consumo, públicos estratégicos, produtos e conceitos, apresentando noções gerais (com erros e acertos cometidos por ele próprio, inclusive) de marketing.

ARENA DO PÃO

Tendência em eventos contemporâneos, a FIPAN criou arenas. Uma delas é a Arena do Pão, que abrigou o Campeonato Internacional de Panificação e Confeitaria, com 8 chefs de 8 países. O patrocínio máster foi da Ireks, companhia alemã que tem forte presença no Brasil – e no mundo. A empresa também marcou participação no Espaço Fermentação Natural. Junto da parceira Nita, a Ireks ministrou aulas sobre o que ela melhor sabe fazer: fermentação natural.

Com 170 anos de experiência, sendo 20 de Brasil, este ano preferiu apoiar as ações acima e dispensou o estande (ano passado ficou em um de 400 m). “Estamos ministrando duas aulas por dia, de uma hora cada, com alguns dos 55 chefs da Ireks”, disse Darcy Holanda Mendes, o diretor de Marketing e Vendas, que atendeu a Empresas&Negócios, tendo nos apresentando o renomado Luiz Farias, chef bicampeão mundial, cozinheiro do papa Bento XVI, em 2007, por ocasião de sua visita ao Brasil.

Darcy Mendes (Ireks), esq, com o chefe Luiz Farias

A fermentação natural é um processo adotado por panificadoras no mundo todo, mas requer tempo (em torno de 12 horas) – artigo que o mundo atual vê como mais escasso dia a dia. Pensando nisso, desde sua fundação, a Ireks produz o fermento natural, desidrata e já entrega pronto, em pó, ao seu consumidor (padocas). Com isto, o panificador ganha um tempo extraordinário, além de confiar na qualidade do produto, explica o executivo da companhia.    

Uma outra modalidade, na inovação setorial, é o aperfeiçoamento do congelamento de pães. Hoje é um processo mais confiável, em termos de armazenamento, qualidade e sabor (creia, o pão parece fresquinho) e, claro, rentável. Para se ter ideia, somente a Marquespan produz 18 milhões/dia de pão francês. Noves fora, esta produção equivale à capacidade de 6.000 padarias. Como se vê, o mercado não é bolinho.  

DO TCC À OPERAÇÃO

Andar pelos corredores da FIPAN é mergulhar em um mundo cheio de curiosidades e boas histórias. Uma delas encontramos no estande da Sigamaq, onde simpatia e fidalguia rimam com tecnologia – sem esforço. Nota-se que a equipe toda é bem treinada e está “na mesma página”. Dos vendedores ao CEO, passando pela elegante profissional de marketing, a Silvia.

Sérgio Souza

“Trouxemos a digitalização para nossos equipamentos neste ano”, explica Lucas Pottmayer”, o CEO da empresa catarinense. A linha de produtos melhora a produtividade e a manutenção preditiva. O processo digital tem origem na parceria da Sigamaq com a Pottmayer I.T., empresa do Lucas, genro do Sérgio (o fundador).

Aliás, conversamos com Sérgio Souza, diretor geral, que nos contou como fez a sua primeira máquina – uma fatiadora, resultado do sexto projeto desenvolvido durante o TCC que fez na Universidade de Blumenau/SC, a FURB.  Desafio era colocar em mesmo equipamento a produtividade, a partir da elétrica, eletrônica e ergonomia conjugadas.

Hoje a Sigamaq tem soluções para o pré-forno (fatiadora, embaladora, seladora) e para o pós-forno (untadeira de formas, aplicadores antimofos etc) atendendo o mercado local e nove países sulamericanos.       

TECNOLOGIA EUROPEIA

O grupo franco-espanhol Europan tem sede do México, 4 fábricas na Itália, uma em Taiwan e operação eficiente no Brasil. Como se nota, globalização é com eles mesmo. Por aqui funciona a importação da matriz, distribuição e algumas reengenharias. A Europan fabrica equipamentos de panificação com base nas normas CE (europeias) e NR 12 (Brasil), explica Luiz Rodelli o diretor técnico no Brasil.

Luiz Rodelli

A sede nacional fica em Curitiba (PR) e atende da padaria artesanal às grandes, bem como supermercados. “Estamos mais focados na linha industrial e temos toda a linha de panificação”, completa ele, afirmando que onde tem equipamento Europan tem também assistência técnica.

Das novidades nesta FIPAN, destaca-se a Divisora com capacidade de processar massa de pão com até 90% de água (ante a anterior, de 70%), permitindo maior lucratividade ao operador.        

MERCADO DE TRABALHO

O setor de panificação e confeitaria no Brasil – a exemplo de outros países –, carece de mão-de-obra especializada, um desafio comum a outros setores da economia. Existem 120 mil vagas abertas em todo o setor, sendo 30 mil somente em padarias. Informação é do atento Darcy Mendes (Ireks). O curso básico para padeiro, ministrado pelo Senai, dura 11 meses. “É profissionalizante e gera ótima empregabilidade”.

Processos gerando inovação são sempre muito bem-vindos, assim como o desenvolvimento de novos equipamentos, mas a formação de mão-de-obra é essencial nesta área, que fabrica 3.300 tipos de pães no mundo, dos quais 120 estão no Brasil.