
Marcelo Gomes (*)
O telefone levou cerca de 75 anos para alcançar 100 milhões de usuários. A internet precisou de aproximadamente sete anos. O Instagram atingiu essa marca em pouco mais de dois anos. Já o ChatGPT chegou ao mesmo patamar em apenas alguns meses. A diferença entre esses números ajuda a explicar uma das maiores transformações do ambiente empresarial atual. Além de uma época de inovação tecnológica, estamos vivendo uma era em que o intervalo para compreender, absorver e responder às mudanças também diminuiu drasticamente.
Ao mesmo tempo em que a velocidade das mudanças aumenta, a complexidade do ambiente de negócios também cresce. Segundo levantamentos do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), o Brasil acumulou cerca de 8,5 milhões de normas federais, estaduais e municipais desde a Constituição de 1988.
Em 1995, esse número era de aproximadamente 2,5 milhões. Em 2005, chegou a 4,5 milhões. Em 2015, ultrapassou 6,5 milhões. O dado evidencia que as empresas não precisam lidar apenas com novas tecnologias, mas também com um ambiente regulatório, econômico e social cada vez mais dinâmico.

Por muitos anos, as organizações foram preparadas para administrar mudanças em ciclos relativamente longos. Havia prazo para analisar cenários, revisar processos, treinar equipes e implementar novas estratégias. Hoje, enquanto gestores avaliam os impactos da Inteligência Artificial, eles também precisam responder simultaneamente a novas exigências regulatórias, reformas nas relações de trabalho, escassez de mão de obra qualificada, pressões por produtividade e mudanças nas expectativas de consumidores e colaboradores.
O resultado é um cenário em que a mudança não é mais um evento pontual e se tornou uma condição permanente de gestão.
É preciso se adaptar à inovação
Quando falamos sobre transformação digital, é comum que a atenção esteja voltada para a próxima tecnologia capaz de revolucionar um setor ou redefinir a forma de trabalhar. Mas a verdadeira questão não está em identificar qual será a próxima inovação. O desafio está em desenvolver organizações capazes de se adaptar continuamente, independentemente de qual seja a próxima mudança.
Empresas costumam investir muito tempo tentando prever o futuro, quando deveriam concentrar parte desse esforço em construir capacidade de adaptação. Afinal, é cada vez mais difícil antecipar com precisão quais tecnologias, regulamentações ou tendências terão maior impacto nos negócios nos próximos anos.

O que já sabemos é que elas continuarão surgindo em uma velocidade crescente. Para as companhias que conseguirem absorver essas mudanças mais rapidamente, as chances de responder melhor aos desafios do mercado, implementar novas práticas com menos resistência e transformar inovação em resultado se torna muito mais consistente.
Os custos invisíveis que comprometem a competitividade
Existe, porém, um segundo desafio que costuma receber menos atenção das lideranças. Enquanto muitas organizações se preocupam em acompanhar as grandes evoluções do mercado, acabam deixando passar perdas silenciosas que afetam diretamente a produtividade e os resultados do negócio.
São os chamados custos invisíveis da operação, que envolvem horas extras não planejadas, admissões lentas e ausências, turnover elevado e processos manuais que consomem tempo sem gerar valor. Situações que, isoladamente, podem parecer pequenas. Mas, quando acumuladas ao longo do ano, representam um impacto significativo sobre margens, eficiência e capacidade de crescimento.

Em muitos casos, as empresas buscam novas tecnologias para aumentar o rendimento sem antes identificar os desperdícios já existentes. Mas a transformação digital produz resultados muito mais consistentes quando é seguida por uma revisão dos processos que geram ineficiência e dificultam a tomada de decisão.
Em um cenário onde tudo muda cada vez mais rápido, é certo afirmar que a vantagem competitiva estará nas ferramentas e nas tecnologias utilizadas. Mas esse resultado também vai para a conta da capacidade das organizações de evoluir, adaptar-se e eliminar tudo aquilo que impede o seu crescimento.
(*) CEO da Nexti, empresa brasileira especializada em soluções integradas para Recursos Humanos.

