256 views 12 mins

Mooca pode inspirar reindustrialização do país

em Manchete Principal
segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Empresários locais anunciam aporte de R$ 1 BI, mas há uma pedra no caminho

Redação

Em um mundo de constante transformação, investimentos costumam ser cobiçados e raramente rejeitados (em condições normais de pressão e temperatura). Diante de algum impasse, podem ser represados também. Este é o caso da Mooca, um dos mais antigos bairros da cidade de São Paulo. Empresários locais querem revitalizar o local, com aporte de R$ 1 bilhão. Mais que isso, a Mooca pretende inspirar a reindustrialização do país, mas para isso faz conta de chegada com o Metrô de São Paulo. A proposta de ampliação da linha Violeta é bem-vinda mas a instalação do pátio de manobras coloca pedras no caminho. Se as articulações do projeto forem bem-sucedidas, o dinheiro vem.  

A Linha 16-Violeta do Metrô prevê trajeto de 32 km, ligando a carente e periférica Cidade Tiradentes, na zona leste, à sofisticada região dos Jardins, no sul da cidade. No meio desse caminho existe uma pedra (gigante!). É que o projeto original prevê um pátio de manobras (na nova Estação S. Carlos) onde se encontrariam os trens das linhas 16, 10 e 6. Esse furdunço precisa ser lido nas entrelinhas. A metáfora da pedra, que inspirou o poeta Carlos Drummond, no caso da Mooca, pode ser traduzida rapidamente por economia e funcionalidade deste grande projeto.

Entrar na av. Henry Ford (próxima à atual linha do trem) e desapropriar 62 empresas não é o que o Polo Empresarial da Mooca (entidade reunindo 228 empresas que, juntas, movimentam R$ 12 bilhões/ano e geram 70 mil empregos diretos e indiretos) deseja. Tampouco sua entidade-irmã, a Distrital da Associação Comercial de São Paulo.

“A Lei 16050/24, que trata do Plano Diretor, prevê a preservação do equipamento público, além de preservar o contexto socioeconômico”, faz questão de frisar o empresário Anderson Festa (“oriundi”, filho de italianos de Roma e Nápoles), presidente do Polo da Mooca e diretor da Associação Comercial, mostrando que o bairro é um eixo elétrico de mobilidade extraordinária. “Temos dois ramais ferroviários saindo da Estação Ipiranga, operando cargas, para escoar rumo ao porto. E são movimentadas pela iniciativa privada”, acrescenta. Com isto, deixam de circular 850 carretas, de 40 toneladas cada, ao mês, na cidade de São Paulo.

Mais barato

A proposta empresarial é readequar o desenho do projeto do Metrô. Ao invés de passar pela Henry Ford (onde a Lorenzetti tem planta, por exemplo), dando um banho de desapropriações no local (62 empresas, no total), desloca-se o desenho do pátio por 1 km, em direção à antiga fábrica da Antártica (cujo imóvel já foi vendido pela Ambev, está ocioso e não passa por nenhum projeto de tombamento.

“O pátio pode se instalar na extensão do viaduto S. Carlos – onde existe área federal, do DNIT, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes –, o que vai sair bem mais barato”, calcula o executivo do polo, enfatizando: “Mostramos aos governos estadual e municipal que existe alternativa”. Empresários e autoridades governamentais já fizeram algumas reuniões, registre-se. Na última, mais recentemente, a associação empresarial entregou sua proposta ao governo do Estado, que ficou de responder até o final deste ano.      

O Polo da Mooca se vê como um case único no Brasil, privilegiando mobilidade e qualidade de vida, ao pensar a reindustrialização, fortalecimento do comércio, serviços e moradia. Anderson Festa cita Tokyo, Singapura, Seul e Copenhage como exemplos internacionais de reurbanização bem sucedida. “Nos moldes de revitalização que propomos, seremos referência no país. Acabou de inaugurar um parque, em área verde de 57.000 m2, e isso contribui com nosso otimismo, pois trabalhamos por uma Mooca cada vez mais integrada e com aumento da qualidade de vida”.

Sotaque Inconfundível

O povoado, a 5 km do centro, que se tornou o bairro mais italiano da cidade de São Paulo, tem registro de 1556. Seu nome, de origem tupi, significa “fazer casa” e por ser indígena não leva acento tônico. A chegada da linha férrea, em 1867 (São Paulo Railway), e a Hospedaria de Imigrantes (hoje transformada em Museu, ao lado da estação de metrô Bresser-Mooca) são responsáveis pela colonização branca. Como ocorreu em todas as grandes cidades, o indígena foi desaparecendo do mosaico populacional. Com o fluxo migratório chegou o loteamento das chácaras e a industrialização acelerada. A indústria têxtil (também em larga escala no vizinho bairro do Tatuapé, no início do século XX) marcou presença forte, particularmente com o conde italiano Rodolfo Crespi.

Nomes como Lorenzetti, La Pastina, Di Cunto, o gigante Cotonifício Crespi, as cantinas Gigio e Don Carlini entregam logo a origem do bairro. Se pesquisarmos mais um pouquinho aparece a Companhia União (produtora de açúcar, fundada pelos italianos Giuseppe e Nicola Puglisi Carbone). E por aí vai. Isso tudo somado ao espírito dos seus moradores confere até um sotaque diferente do restante da cidade. Quem conhece a Mooca sabe. È vero!

O futebol é marca do bairro. O Juventus, cuja tradução do latim é juventude, é homônimo do tradicional clube italiano que carrega o apelido de “vecchia signora”. Detalhe: o nosso Juventus tem o mesmo nome, mas a camisa ostenta a cor do (rival) Torino, grená. Coisas do Brasil. Mas a coisa não para aí. Tem o Parque da Mooca, agremiação temida por sua torcida que tocava o terror em campo nos anos 1980 / 90. Ambas as agremiações são de 1924 e têm passagens pela 1ª. Divisão e a Especial do futebol paulista. O Juventus, que dá nome à rua de sua sede, tem estrutura maior e mais tempo na elite.

Todo 7 de setembro (feriado nacional) há um esperado evento no bairro que tanto gosta de futebol: reúnem-se os moradores da rua Madre de Deus para realizar a importantíssima peleja Casados x Solteiros. O futebol de campo acontece desde a década de 1950 / 60, tendo como destaque a “regra 18”, traduzindo, os casados sempre ganham. Isto, em verdade, mostra um pouco da alma da “república moquense”, que tem um sotaque e um jeito próprio de levar a vida.

Bairro plural

Indústria, futebol e boa gastronomia é só um brevíssimo resumo do que a Mooca (bairro com aproximadamente 80 mil habitantes, sendo mais populoso que 82% das cidades do Estado) tem a oferecer. Teatros (no plural mesmo), universidades, shopping e muita tranquilidade são coisas triviais. Destaque para a prestação de serviços que tem, obrigatoriamente, de ser atrelada à Associação Comercial (que inaugurou sua Distrital em 1953) e ao sr. José Eustachio, o “sr. Zé da papelaria”, que, no ano de 1954 criou o principal jornal do bairro e região, como nos conta Nanete Neves, jornalista e escritora de alto calibre e carismática como o pai. Veja o breve relato dela, a seguir.

“A Mooca historicamente sempre foi um bairro acolhedor que, no início do século XX, recebeu imigrantes pobres da Península Ibérica (sobretudo portugueses, espanhóis e italianos) que viviam em cortiços também habitados por negros recém-libertos, num amálgama de culturas que contribuiu com a sua força de trabalho para o desenvolvimento de São Paulo. Meu pai, José das Neves Eustachio veio dessa origem (minha avó era portuguesa). Ele teve várias profissões até que, em 1950, abriu um bazar/papelaria que, por sua incrível capacidade aglutinadora, era ponto de encontro do bairro. Lá no balcão, entre outros assuntos, as pessoas falavam sobre os problemas no bairro e região. E foi quando ele teve a ideia de registrar essas reclamações em uma espécie de boletim que mandou imprimir às suas próprias custas e distribuiu nas residências. Na sequência, ele levou algumas cópias até a prefeitura. E ela rapidamente resolveu questões como buracos nas vias, alagamentos etc.. O resultado foi tão bom que os moradores pediram que ele fizesse outro boletim. Era 1954 e foi aí que ele teve a ideia de lançar o “Jornal O Amigo”, que depois avançou para os bairros vizinhos e passou a se chamar “A Voz do Bairro”, que circulou até 2012, sempre defendendo os interesses da Mooca e região”.

Como se vê, a vigorosa e acolhedora Mooca – que tem um Hino, escrito pelo sr. José Eustachio – é mais que números, comércio e indústria. A Mooca é também serviços, que só fazem bem à alma de quem a conhece. E com tanta coisa boa, é mais que justo que o moquense tenha sua própria estação de metrô, ampliando as facilidades da mobilidade moderna. E, claro, inspire a reindustrialização do Brasil, porque desenvolvimento é também vocação. Capisce bello?

Industrialização de processos resolve maior dor da construção civil | Jornal Empresas & Negócios