
Profissionais da área têm níveis maiores de exigências
Redação
Menos saving e mais valor agregado. Este foi uma espécie de mantra que permeou o 23º Fórum de Compras & Sourcing, realizado durante dois dias no Transamérica Expo Center, em São Paulo, reunindo 100 estandes, 200 palestrantes e 8.000 pessoas, segundo a organização. Presente e futuro caminham de mãos dadas e, por isso, é preciso se atualizar permanentemente. Até curso de MBA de Gestão de Compras já existe, oferecido pela Live University / Inbrasc que organiza o evento. Se comparado a um mercado de trabalho relativamente recente, pode-se afirmar que o profissional de compras hoje está em uma nova atividade.
Capacidade de negociação, insights sobre formação de preço, noções de custos integrais (insumos, mão de obra, oportunidade), conhecimento de mercado, geopolítica e Inteligência Artificial são requisitos “básicos” nesta nova era em que o “procurement” vai muito além da redução de custos e contratos, abordando ESG, resiliência de cadeia e as várias formas de IA disponíveis para o seu negócio. Em um mercado cada vez mais competitivo, com grandes transformações, maior dinamismo e novas exigências regulatórias, o “procurement” (processo de identificação, sourcing, aquisição, recebimento e gestão de todos os bens, serviços e matérias-primas que uma empresa precisa para operar – pela definição da SAP) assume um papel cada vez mais estratégico.
Não por acaso, o primeiro painel do evento (ocorrido neste último dia 6) denominou-se “O novo jogo de Procurement: o que está mudando e o que não pode mais ser ignorado?”.Moderou a discussão o diretor de Eventos da Live University, Lucio Mancini; tendo ao lado, na Arena 360°, Janaina Peres (Mars); Sheila Tolfo (BMW Group Brazil) e Erwin Souza (Fronteiras Mineração).
Pessoas no centro
“Está na hora de pararmos de pedir licença e ocupar o lugar que nos é de direito”, decretou Janaina Peres, afirmando que se gargalo existe, na área, “está localizado na mentalidade”. Ela comentou a forma como se engajam os stakeholders e o que definiu como três pontos fundamentais nesta discussão: 1) IA, como o novo normal; 2) Agenda de Risco; 3) Sustentabilidade.
“Todos somos impactados por aquilo que acontece no mundo, daí a obrigação de se conhecer geopolítica, em nossa atividade”, ponderou Sheila Tolfo. Já o representante da mineração, Erwin Souza, disse que o mergulho na autocrítica tem tornado o mercado mais competitivo e apregoa a máxima de “mais valor e menos preço”. A representante da BMW colocou o ser humano no centro dos debates, sendo seguida pelos demais na Arena. “Devemos nos preocupar com as pessoas e deixar a IA cuidar do resto”, resumiu Janaina.
Ecossistema
O ecossistema Inbrasc (escola de negócios da Live University, focada em Supply Chain) foi apresentado no início do Fórum, por Lucio Mancini, Alex Leite e Rafael Scucuglia, diretores da LiveU e organizadores do Fórum de Compras. Abrindo o painel, Alex Leite marcou 3 pontos em sua fala: 1) Saving; 2) + Valuation; 3) + Innovation. Ele que lançou o livro “Dynamic Learnability”, chamou a atenção no final da exposição destacando a reforma tributária, com um slide sugestivo sobre Davi (o comprador) e Golias (o gigante, representando o Estado): “Reforma Tributária, a batalha enfim começou”.
Rafael Scucuglia, diretor geral de Academics, abordou as compras autônomas e agênticas – definindo o que é assistente e o que é agente de IA. “Agente é o cara que corrige as provas, na escola, no lugar do professor”, ilustrou.

Refeitório / Complexidade
Head de Suprimentos de Serviços e Tecnologia na AMBEV, Rodrigo Inarra deu um show em sua apresentação, focando em refeitórios. “Precisamos sair do transacionar compra, para orquestrar valor”, enfatizou ele, lembrando que a AMBEV trocou o saving pela geração de valor. Inarra comentou os riscos do negócio, detalhando a operação. “É bom ficar claro que eu não compro somente a refeição. Eu discuto preço, sim, mas compro conforto e segurança”. Observou ainda que preço é um único item, enquanto a gestão de custos pressupõe insumos, mão de obra, estrutura e margem, com cada componente se movendo de um jeito diferente.
Feira de Negócios – 100 Estandes
Paralelamente à Arena 360º, estiveram os patrocinadores do evento (em número de 80 este ano), misturando-se à estrutura montada de mais 8 palcos de conteúdo, espaços da organização (estande e longe da Live U, por exemplo), alimentação etc. Depois de duas horas de evento, o público já era grande, dividindo-se entre os palcos e os estandes, simultaneamente, fazendo o tradicional e esperado networking. A sensação é que toda empresa que é do ramo estava por lá. O Jornal Empresas&Negócios também esteve na área, visitou e entrevistou gente desse mercado de compras e sourcing.
Gestão de Terceiros
A gestão de fornecedores vem ganhando espaço nas decisões estratégicas de compras à medida que as empresas precisam conciliar eficiência operacional, controle de riscos e geração de valor. É nesse contexto que a Bernhoeft participou da feira. Por meio da unidade de Gestão de Terceiros e Fornecedores (GRT), a empresa apresentou sua abordagem para transformar a gestão de terceiros em uma frente integrada à estratégia de compras, combinando tecnologia, inteligência artificial e conhecimento especializado para reduzir atividades operacionais, ampliar a visibilidade sobre fornecedores e apoiar decisões relacionadas a riscos e conformidade.
Materiais Indiretos

A Gimba marcou presença no Fórum, com caprichado estande para receber clientes, amigos e fornecedores. Empresa do Grupo Remazza, que fatura R$ 3,7 Bi/ano, a Gimba participa com R$ 860 Milhões e prepara novo salto para bater R$ 1 Bi, no ano que vem, aposta Benones Gimba. “Somos uma empresa que agrega produtos à prestação de serviços”, define ele, que tem apenas 0,3% de margem de erro na operação (chamada conferência às cegas). São 20 mil itens disponíveis, para as companhias clientes, sendo 5.600 pedidos separados por dia. A Gimba tem um total de 680 funcionários, espalhados pelas áreas comercial, administrativa e no CD de Barueri, de 38 mil m2, onde acomoda os materiais indiretos para deixar a empresa-cliente 100% focada no seu core business.
Abraçando a Reforma Tributária

O executivo Ori Brandão estava sorridente no evento. O vai e vem de potenciais clientes para aumentar o atendimento (dos já conquistados 8 milhões de CNPJ) o motivava a isso. Oferecendo serviços que visam o melhor preço líquido para o cliente, o diretor da ROIT falou sobre tex tech (tecnologia e área fiscal juntas). “Oferecemos uma visão 360º do negócio, reunindo contrato, registro, automação inteligente em único produto”, disse referindo-se ao RAI que integra 4 pilares: compras, jurídico, financeiro e fiscal. Em sua visão, a participação da ROIT no Fórum vai abrir o leque das empresas de faturamento de 500 milhões/ano, prometendo já para o ano que vem uma receita maior que os atuais R$ 150 Milhões.
Viagens Corporativas

Fundada há 17 anos, a Voll tornou-se uma das maiores agências corporativas de viagens. De acordo com Guilherme Pignatari, ela é a maior, com 2 milhões de transações e faturamento previsto de R$ 2,2 bilhões até o fim do ano. Para 2027, os números também prometem. A Voll tem na carteira aproximadamente 500 empresas, no Brasil, entre as quais Itaú, AMBEV, Riachuelo, NuBank e McDonalds. “Fazemos o serviço de passagens aéreas, hotel, mobilidade, enfim, cuidamos de toda a viagem”, destaca Pignatari, acrescentando que o diferencial da empresa é reunir atendimento e tecnologia.
De olho no Crime
O crime organizado também acende alerta para as empresas na gestão de fornecedores. A presença de conhecidas organizações criminosas no país também representa um desafio para empresas que precisam controlar riscos em suas cadeias de fornecimento. O alerta é de Lucas Madureira, CEO da Gedanken, líder em tecnologia para homologação de fornecedores e na gestão de riscos, que defende uma análise mais ampla de fornecedores, prestadores de serviços e parceiros comerciais. Segundo o executivo, processos tradicionais de homologação podem não ser suficientes para identificar conexões indiretas com organizações criminosas. “Uma empresa pode estar exposta a riscos relacionados ao crime organizado por meio de fornecedores, prestadores de serviços, parceiros comerciais ou outras contrapartes”, afirma ele, acrescentado que o desafio está em ampliar a diligência sobre terceiros e transformar a análise de fornecedores em um processo contínuo, capaz de identificar mudanças societárias, relações e outros sinais de alerta ao longo do tempo.
Cadeia de Suprimentos
A GEP Brasil, líder global em soluções e tecnologia para Procurement e Gestão da Cadeia de Suprimentos (Supply Chain), levou ao evento insights estratégicos expondo como as grandes organizações estão migrando de processos manuais para ecossistemas integrados com Inteligência Artificial aplicados em escala global. “O setor de Procurement vive um momento de virada sem precedentes. A transição das planilhas manuais para a Inteligência Artificial em escala não é mais uma tendência de futuro, mas sim uma necessidade do presente para garantir competitividade e resiliência. Nosso objetivo, no Fórum, foi mostrar com casos reais e aplicação prática, como a tecnologia pode transformar radicalmente a gestão de suprimentos e gerar valor tangível para os negócios”, contou Erick Boano.
Ciclo de Vida
Atuar junto ao ciclo de vida do fornecedor. Esta é a proposta da Four Trust, consultoria SAP que atua junto às áreas de mineração e siderurgia, entre outras. Especializada em ambiente SAP, a empresa conecta o ciclo do fornecedor em uma plataforma / portal de fornecedores. A medição de serviços é o chamado “carro-chefe”, descrito por Fábio Machado. A 4Trust tem 1.000 fornecedores registrados, realiza conferências e faz a gestão contratual de serviços, sobretudo nas áreas de vendas e faturamento, deixando de sobrecarregar o contratante em suas atividades diárias.
Liderança Humana
Prestex destacou o papel da inteligência artificial e da liderança humana no 23º Fórum de Compras. Especialista em logística ultraexpressa apresentou cases práticos sobre governança, automação e implementação de IA em operações 24/7 durante o evento da Live University. No painel “Quem lidera quem? Gestão de humanos e agentes na era da IA”, ocorrido no segundo dia, a gerente de Marketing da Prestex, Claudia Sá, abordou como as áreas de Compras e Suprimentos podem redefinir responsabilidades, limites de autonomia e segurança de dados na era dos agentes inteligentes. A palestra enfatizou a importância de manter o pensamento crítico e a governança no topo das decisões estratégicas.

PESQUISA
41% das empresas têm projetos corporativos e 86% programam uso de IA nos próximos 12 meses
De acordo com o Índice de Maturidade em Compras (IMC), estudo da Live University | Inbrasc divulgado durante o 23º Fórum de Compras & Sourcing, em São Paulo, 86% das empresas colocam IA nos planos para os próximos 12 meses, mas só 41% já têm projetos corporativos – índice inferior aos profissionais que, isoladamente, já entraram no negócio da tecnologia.
O levantamento revela que 60% dos profissionais já usam a tecnologia diariamente, enquanto apenas 49% sabem avaliar quando recorrer à IA no trabalho. A inteligência artificial se tornou a principal tecnologia prevista no roadmap das áreas de Compras para os próximos 12 meses. Ela foi citada por 86% das empresas pesquisadas, ante 62% em 2025.
Apesar do salto, apenas 41% das organizações têm projetos corporativos de IA em andamento, diferença que mostra o espaço entre a intenção de investir e a adoção da tecnologia dentro das empresas. O levantamento da Live University | Inbrasc analisa o nível de maturidade da área de Compras nas empresas brasileiras e compara os resultados com a edição de 2025. O uso individual da IA está à frente dos projetos corporativos. Nada menos que 60% dos profissionais de compras usam assistentes como ChatGPT e Claude todos os dias e 40% das empresas já contam com agentes de IA ativos.
Entre as aplicações mais citadas estão agentes para suporte, com 57%, análise de contratos, com 46%, e automação de RFPs e negociações, com 36%. O acesso à tecnologia, porém, não significa domínio sobre seu uso. Apenas 49% dos profissionais afirmam saber avaliar quando devem recorrer à inteligência artificial nas atividades da área. É o menor índice entre as competências analisadas pelo IMC. Em negociação, por exemplo, 79% afirmam saber planejar e conduzir processos com objetivos e limites definidos.
Em 2025, 31% classificavam o tema como prioridade alta ou muito alta. Neste ano, são 47%. Retenção de talentos também avançou, de 23% para 43%, enquanto automação de processos internos chegou a 62%. O estudo encontrou ainda uma diferença relevante entre as empresas que já estruturaram a formação das equipes: organizações com plano de capacitação apresentam maturidade 36% maior e resultados superiores nas 64 práticas avaliadas pelo índice.
O IMC também mostra que o departamento de compras ampliou sua participação nas decisões das empresas. Hoje 78% incluem a área no planejamento estratégico de longo prazo, ante 67% em 2025, e 76% afirmam que as iniciativas da área contam com apoio da Diretoria. O índice geral passou de 60 para 63 pontos em um ano, e a parcela de empresas nos níveis Avançado ou Referência subiu de 29% para 41%.




