
Aumentam as denúncias e também a violência virtual
Redação
Você sabia que 70% dos estupros praticados no Brasil são contra crianças menores de 13 anos? Sabia também que 85% dos abusos sexuais ocorrem dentro de casa, pelos familiares e pessoas próximas? Quanto mais se avança no assunto, mais números aparecem. E todos são aterradores! Mas, o que fazer para acabar ou diminuir drasticamente os casos futuros a fim de que não virem meras estatísticas? Conscientização ampla (em casa, na escola, igrejas, clubes sociais, redes digitais e nas empresas) e denúncia (Disque 100) são os caminhos apontados por especialistas ouvidos pelo jornal Empresas&Negócios, nesta série de três publicações que ora iniciamos.
Administradora com larga experiência profissional, pós-graduada em Psicologia Transpessoal e Publisher deste jornal, Lilian Mancuso decidiu dar vazão à sua inquietude com a questão do abuso infantil no Brasil. Mais que isso, encorajou-se a dizer que ela própria sofreu um tipo de abuso e conta como sinal de alerta. Para tal coloca o próprio veículo à disposição do tema “Combate ao Abuso Infantil” destacando ser esta uma forma do jornal exercer o seu papel social, dentro do negócio informação e formação que cumpre ao Empresas&Negócios. Na prática, esta série amplia a ação impulsionada em 2017, e lança uma campanha contra o abuso infantil, convidando empresas e instituições, além das pessoas físicas, a ajudar na disseminação da informação.
“No ano de 2012 decidi fazer pós-graduação e a área escolhida foi a Psicologia Transpessoal”, conta-nos Lilian Mancuso, admitindo ter vivenciado uma época extraordinária: “Confesso terem sido dois anos riquíssimos em conhecimento sobre um assunto que desconhecia, pois minha graduação é em Administração de Empresas”.

Mais que o assunto geral, aproveitou para iniciar sua terapia no âmbito acadêmico, a partir das próprias descobertas, como explica. “Durante o processo entrei em contato com alguns traumas de infância, que até aquele momento não eram conscientes. Quando vieram à minha consciência tudo foi muito impactante e me aprofundei no assunto”.
E prossegue: “Resolvi escolher como tema de meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) os impactos que o trauma decorrente de abuso pode ocasionar na personalidade de uma criança. Durante todo o estudo fui encontrando em mim mesma vários bloqueios, raiva intensa, baixa autoestima e diversos outros fatores. Tudo isso ocorreu quando estava com 50 anos”. Absorvido o ensinamento, concluiu: “Eu pude constatar que vivi durante 45 anos dentro de uma gaiola. Na realidade, sobrevivi mas não vivi”.
Quando assumiu a direção do jornal em 2017, uniu a oportunidade de compartilhar com um universo (bem) maior as suas descobertas e, assim, democratizar o conhecimento. “Fiz um projeto levando ao leitor do jornal tudo o que aprendi e descobri em meu processo sobre esse assunto. O resultado foi uma veiculação semanal (por quatro semanas), encerrando no dia Mundial de Combate ao Abuso Infantil”. Cabe destacar que o material encontra-se disponível no site do jornal até hoje:
Completando, Lilian Mancuso reitera que neste ano decidiu continuar com a iniciativa, “já que, infelizmente, casos envolvendo o abuso infantil não param de ´pipocar´ no noticiário mundial”. E encerra: “O fato mais impactante que descobri em minha trajetória vivenciada e estudada é que nesses tipos de abusos, todos os envolvidos são vítimas. Por isso recomendo que leiam o material de 2017, se ainda não o fizeram, e acompanhem o deste ano, porque sempre podemos ajudar de alguma forma”.

REDE DE PROTEÇÃO / EMPRESAS
A realidade dos abusos cometidos contra crianças no Brasil – e no mundo – é dura. Olhando de longe parece que estamos a “enxugar gelo”. De perto às vezes muda, dependendo do recorte que se faz. A sociedade, hoje, está mais consciente e, creia, tem muita gente boa no combate ao abuso infantil. A professora de Direito Constitucional, advogada, ativista e ex-delegada de polícia Luciana Temer é uma dessas pessoas que nos revela ter atitudes firmes, focadas, espírito crítico e doçura no coração.
O empresário Elie Horn é o fundador do Instituto Liberta (https://liberta.org.br/), criado em 2017 para enfrentar o que ele, ex-presidente da Cyrela, chamava de “escravidão sexual de meninas”. Horn convidou Luciana para presidir o instituto, propagando os seus objetivos, através de debates, entrevistas, campanhas, vídeos e apoio a pesquisa.
Ela que recentemente participou do programa Canal Livre (na Band TV), nos concedeu entrevista para tratar do assunto e já trazendo uma grande novidade: o Instituto Liberta patrocina o Movimento Violência Sexual Zero (https://violenciasexualzero.com.br/) com apoio de 180 empresas – entre as quais WEG, Uber, Uol, Banco do Brasil, Bradesco, Vale, Petrobras, Natura, APAE Brasil, Child Hood e mais recentemente o jornal Empresas&Negócios. Assim, uma parcela importantíssima da sociedade civil — as empresas, no caso –, junta-se à Rede de Proteção que vai aumentando. Proposta é que cada companhia aderente firme o compromisso de combater o abuso infantil envolvendo seus colaboradores.
A violência presencial continua com índices alarmantes mas mantém estatísticas (lembrando que cerca de 26% dos casos não são denunciados) enquanto a violência virtual (online) cresce em grande velocidade, especialmente após a pandemia. “De uma forma geral acontece o aumento da conscientização. A violência sempre esteve em nosso cotidiano, o que estamos fazendo agora é tirar a sujeira que estava debaixo do tapete”, diz a professora, acrescentando: “Fui delegada de Defesa da Mulher, há 30 anos, numa época em que ninguém acreditava que mulher rica passaria por esse tipo de problema. Hoje temos a Lei Maria da Penha (de 2006) e uma conscientização permanente contra a violência e os abusos infantil e adulto”.
Pesquisa Datafolha, em parceria com o Instituto Liberta, mostrou, em 2022, que 32% dos casos de violência sexual são praticados contra menores de idade (https://www1.folha.uol.com.br/folha-social-mais/2022/08/1-a-cada-3-diz-ter-sido-vitima-de-agressao-sexual-na-infancia.shtml) e que 26% nunca contaram pra ninguém. “É um crime silencioso”, diz a presidente do Liberta, enfatizando ainda que o aumento dos números da violência são consequência de mais denúncias.

ESTUPRO VIRTUAL
Ocorrência mais recente na história, com a popularização da internet, o estupro virtual (masturbação ao vivo, introdução de objetos em órgãos genitais, chantagens etc) tem aumentado as estatísticas da violência, sobretudo com crianças. “E já existe reconhecimento legal como crime, temos jurisprudência”, acrescenta a professora de Direito. Destaca ainda que 60% dos estupros denunciados e registrados ocorrem na casa da vítima e que em 85% dos casos são praticados por familiares ou pessoas muito próximas.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), fez pronunciamento destacando a missão oficial da Comissão de Direitos Humanos (CDH) ao arquipélago do Marajó, no Pará, dia 1º de julho deste ano. A diligência foi aprovada pela comissão, de acordo com a Agência Senado, e incluiu visitas às cidades de Breves e Anajás para investigar denúncias de abuso sexual e tráfico humano envolvendo crianças e adolescentes. O grupo reuniu-se com representantes das redes de proteção à infância e às mulheres, além de autoridades locais e familiares de vítimas. Damares relatou que a comissão ouviu a mãe de Amanda, menina de 11 anos sequestrada, torturada e assassinada em Anajás. O corpo foi encontrado a menos de 150 metros da casa da família. Dois suspeitos foram condenados.
“Sabemos que não é só no Marajó que acontece isso”, lamenta Luciana Temer ilustrando com uma ocorrência que atendeu, ainda delegada, em 1993, na cidade de Osasco (SP). “Uma menina de 13 anos foi estuprada pelo pai. Quando fui conversar com a mãe me disse que tinha 5 filhos, que praticamente só comiam arroz e que era o pai quem comprava os alimentos…”. Engana-se, porém, quem pensa que isto só acontece com as pessoas vulneráveis. “Já atendi caso de uma menina rica, de 12 anos, estuprada pelo pai… E quando o crime é intrafamiliar a denúncia é mais difícil”.
Para a ex-delegada, a informação é a grande arma no combate à violência infantil: “Primeiro, é preciso instruir os adultos e depois informar as crianças corretamente, inclusive falando o nome verdadeiro dos genitais para que a criança saiba identificar o assédio e a violência”, diz ela, frisando ainda que o Instituto Liberta disponibiliza materiais, gratuitamente, voltado a pais, educadores e crianças de 0 a 10 anos. E finaliza: “Gerar indignação é importante, mas o que fazemos depois com ela?”.
LIVROS E VÍDEOS
No site liberta.org.br você encontra dicas de livros e vídeos como os títulos:
- Não me toca, seu boboca! – por Andrea Viviana Taubman
- Pipo E Fifi. Ensinado Proteção Contra A Violência Sexual Na Infância – por Caroline Arcari
- Segredo segredíssimo – por Odívia Barros
- Meu corpo, meu corpinho! – por Roseli Mendonça
- O poder de me proteger – por Mariana Mott
E os vídeos:
Que Abuso é Esse?
Autofeda e Segurança Online
Não Me Toca seu BOBOCA!
Prevenção à Violência Sexual
NINGUÉM MEXE COMIGO – O MUSICAL! Adulto, convidamos você a somar sua voz nesta rede de proteção!
DATA
Esta matéria é a primeira de uma Série de três, sobre Caminhos do Combate ao Abuso Infantil. A presente é veiculada em 04/11/25, sendo as demais, sequencialmente, em 11/11 e 18/11.
O 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data tem origem na memória da menina Araceli Crespo, sequestrada, violentada e morta aos 8 anos, em 1973, chocando todo o país.
Embora existam múltiplas datas, com nomes diferentes das campanhas, escolhemos o 18 de Novembro para fazer referência ao Dia Mundial para a Prevenção e Cura da Exploração, Abuso e Violência Sexual Infantil.
A data foi instituída pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2022, com o objetivo de ampliar a conscientização sobre o problema, que tem escala global.



