
Comecei minha carreira muito cedo, aos 14 anos, como assistente em um escritório de advocacia. Esse primeiro emprego acabou definindo o rumo da minha trajetória profissional: decidi, com base no que via no escritório, ingressar na Faculdade de Direito aos 17 anos. Atuei como advogado – primeiro contratado e depois sócio – em escritórios de advocacia durante os primeiros 7 anos da minha carreira.
Após esse ciclo inicial, migrei para o mundo corporativo, onde estou há alguns anos: nos primeiros 14 anos ainda no universo jurídico (tendo ocupado o cargo de Diretor Jurídico em duas instituições financeiras) e, nos últimos 4 anos, no
universo de Compliance.
Na Faculdade de Direito, aprendemos muito sobre leis, teorias e doutrinas, mas muito pouco – ou quase nada – sobre gestão ou gestão de riscos.
O que sei sobre Gestão de Riscos, do ponto de vista técnico, aprendi lendo, estudando e, principalmente, na prática – errando e acertando.
Olhando em retrospectiva, chego à conclusão de que todos nós nascemos com, no mínimo, um instinto de Gestor de Riscos.
Uma boa Gestão de Riscos envolve, no mínimo, as seguintes etapas:
(a) escolher o processo que precisa ser gerido;
(b) definir o contexto que precisa ser enfrentado;
(c) identificar os riscos envolvidos;
(d) analisar e avaliar os riscos identificados; e
(e) estabelecer um plano de ação para mitigar esses riscos e acompanhar seus resultados: se funcionar, passar a
monitorar; se falhar, replanejar e seguir monitorando até que funcione.
Analisando essas etapas, posso dizer – pelo menos a partir da minha experiência, mas acredito que isso se aplique à maioria das pessoas – que fazemos isso, com maior ou menor sofisticação, em nosso cotidiano, desde o nascimento até o fim da vida.
Ampliando essa análise, para o ambiente da minha experiência (o setor financeiro e especialmente o varejo bancário), posso afirmar, sem medo de errar, que a transformação digital tem ampliado tanto os desafios quanto as possibilidades da gestão de riscos. Como aponta o World Retail Banking Report 2024, os clientes esperam experiências cada vez mais personalizadas, integradas e digitais. Para isso, os bancos precisam evoluir de modelos de negócio tradicionais para plataformas orientadas por dados, onde a confiança passa a ser o pilar central da relação com o cliente.
Nesse ambiente, o uso ético e transparente de dados não é apenas uma obrigação regulatória — é uma vantagem competitiva. Os bancos que conseguirem combinar inteligência de dados, inovação tecnológica e sensibilidade humana serão os que liderarão o setor. Por isso, a Gestão de Riscos precisa deixar de ser apenas uma função de proteção e passar a ser uma função estratégica, conectada à experiência do cliente e à geração de valor.
Claro que, no ambiente corporativo, conseguimos potencializar essa gestão com o uso de ferramentas tecnológicas, como o uso massivo – e assertivo – de dados, machine learning e outras possibilidades como a GenAI (abrindo um novo mundo a ser explorado).
Gerir riscos não é uma tarefa simples. É uma missão em constante e necessária evolução (os riscos mudam e evoluem todos os dias…), mas estou convencido de que todos nós nascemos com essa semente e esse instinto – que podem e devem ser cultivados e desenvolvidos.
(Fonte: Álvaro Loureiro é Sr Head de Compliance do Santander Brasil e Diretor na VP de Varejo da Sucesu-SP).




